São Sebastião do Umbuzeiro, 22 de fevereiro de 2041

Vai para uns trinta anos, a conceituada revista Science deu a conhecer um estudo, que contrariava tendências reveladas em decisões de política educacional de então. A publicação da Associação Americana para o Avanço da Ciência parecia ser uma das revistas preferidas de ministros da educação acérrimos defensores do aumento do número de aulas dedicadas à Matemática e à Língua Materna e que apostavam no aumento da quantidade de testes, provas, exames e quejandos, como antídotos para o descalabro da educação. O negacionismo prosperava também no campo da educação. 

Ao longo de 35 anos, Deborah Stipek, docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, trabalhou no referido estudo. A autora enuncia o facto de os jovens serem treinados para obter bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. Acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada.

Sublinho que este diagnóstico foi dado a conhecer pela Science, que não se trata de uma afirmação leviana. No artigo científico “Educação não é uma corrida”, Deborah sublinhava o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas, enquanto “prejudica vidas que poderiam ser promissoras”. Em suma: um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames era prejudicial à aprendizagem. Uma pesquisa com 35 anos de duração nos avisava que não bastava efetuar mudanças pontuais e que era urgente mudar o modo como funcionavam as universidades e as escolas. Escutemos a pesquisadora: 

“O sistema atual, baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Essa forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na atualidade faz com que potenciais vencedores do Prêmio Nobel sejam perdidos antes mesmo do fim da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém”.

Os estudos disponíveis na época diziam-nos que o problema era maior nas escolas privadas, voltadas para a aprovação no vestibular. Afirmava uma professora da Universidade de São Paulo: 

“É preciso redescobrir o significado de ir à escola, de estudar. Mercado de trabalho, preconceitos e status social são questões que devem deixar de nortear as políticas educacionais. A sociedade valoriza muito mais o trabalho cooperativo, mas a escola forma alunos muito mais focados no trabalho individual. Quem disse que é preciso ser o melhor aluno, frequentar a universidade mais renomada? A maioria dos grandes pensadores, que deixaram um legado para a humanidade, seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido. Fizeram o que fizeram unicamente porque gostavam daquilo e não por uma imposição social”. 

A lista era extensa: Gandhi, Edison, Picasso, Einstein… 

Nos idos de vinte, lamentavemente, os equívocos ministeriais ocultavam e adiavam a compreensão e a transformação que, desde há muito tempo, o mundo da educação requeria. Até que chegou o tempo de agir e de convidar o poder público para um diálogo esclarecedor.

Nesse tempo, a educação era maltratada por sucessivos desgovernos. Mas, seria através da educação que o país progrediria. Não pela velha ordem da educação negacionista, mas por uma nova ordem, um processo político de compreensão da realidade e de transformação do mundo. 

 

Por: José Pacheco