Pilar, 19 de janeiro de 2041

Deverás estar recordada, querida Alice, de um livrinho que escrevi, quando nasceste. Nele te contei estórias que não deveriam ficar por contar. Através de imperfeitas palavras, regredi ao tempo em que se desenhavam os destinos de crianças futuras como tu.

Contei-te estórias da velha escola, de velhos mundos. E te descrevi um reino encantado, junto ao mar. Era encantado, porque uma fada transformara todos os habitantes em pássaros. E junto ao mar… porque convinha ao enredo das estórias.

As personagens centrais dessas estórias eram gaivotas dissidentes, que decidiram abalar dos rochedos junto ao mar e ir à aventura. Porque, no mais profundo recanto de uma das mais profundas cavernas, encontraram velhos pergaminhos. Leram-nos. E foi esse achado que despertou o desejo de partir e de sonhar.

Num dos dias de um longo peregrinar, as gaivotas educadoras chegaram a uma terra entre dois rios…

Fiquemos pelas reticências e demos um salto temporal de meio século. Peço que perdoeis por mudar de tom, por ficar azedo, numa cartinha, que se anunciou doce. Precisarei de prescindir de poéticas personificações, para vos descrever outras sonhadoras gaivotas, que conheci ao longo da minha vida profissional. Poderíamos dividi-las em dois tipos: as que viraram “conformistas” e as verdadeiramente “sonhadoras”. E os professores sonhadores – é deles que falarei, a partir de agora – se subdividiam em três tipos.

Primeiro tipo: “sonhadores que sonhavam sozinhos”. Havia quem continuasse sozinho na sua sala de aula, na ignorância de que a profissão de professor não poderia continuar a ser um ato solitário e que deveria constituir-se em ato solidário. No exercício solitário da profissão, importavam modas pedagógicas, ambicionando ser um ridículo “professor nota 10”.

Também havia quem, por impotência, desistisse do árduo trabalho do Fundamental e do Médio e se isolasse em torres de marfim universitárias. Instalados no “superior”, produziam e vendiam livros, onde teorizavam teorias de teóricos que teorizavam teorias. Os seus inflados egos se exibiam em palestras, nas quais aconselhavam os seus ex-colegas do “Inferior” a fazer o que eles próprios não eram capazes de fazer.

Esses “sonhadores que sonhavam sozinhos” eram sonhadores inúteis.

Segundo tipo: “sonhadores salve-se quem puder”.

Havia quem, após frágeis tentativas de mudança, cedessem perante o autoritarismo de superiores hierárquicos. Passada a breve euforia, remetiam-se para o estatuto de “sonhador que sonhava sozinho”. Outros manifestavam sentimentos associais e inventavam paraísos artificiais. À margem do sistema, narcisicamente se extasiando na contemplação das suas falsas comunidades, se compraziam na ilusão de terem inovado.

Os “sonhadores salve-se quem puder” eram tão inúteis quanto os anteriores.

Terceiro tipo: “sonhadores que sonhavam juntos”.

Alguns sonhadores ousavam mudar e inovar. Em equipe, defendiam os seus projetos, até à exaustão. Depois, desistiam. Iam parar na fila de espera da psiquiatria, ou mudavam de profissão. Outros, também em equipe, desenvolviam uma tal resiliência, que não se deixavam abater, nem permitiam que os seus projetos fossem extintos. Eram sonhadores úteis – os primeiros, enquanto resistiam; os segundos, porque nunca desistiram.

O Raul os homenageou nas suas canções: “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas, sonho que se sonha junto é realidade”. Ou, como o Brecht diria, “há os que lutam muitos anos e são muito bons, mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis”.

Por: José Pacheco