Santa Terezinha, 20 de janeiro de 2041

Sempre que, por uma boa causa, eu ouvia falar de um educador, ia à sua procura, onde quer que ele estivesse. Foi pelos idos de 2016 que conheci a Gina. Eu andava por Brasília e soube de um evento – creio que por março, na sede do Sinpro-DF – e me coloquei na última fila do público, para a escutar. 

Antes que a sessão de autógrafos começasse, discretamente, tal como tinha chegado, me afastei do local. Naquela altura, involuntariamente, o vosso avô era “figura pública”. Não queria que se apercebessem da minha presença, mas alguns minutos bastaram para reter a impressão que a Gina me causou: uma aparente fragilidade, adornada de uma extrema simplicidade, aliada à firmeza, que só uma “Mulher Inspiradora” poderia demonstrar.

Decorridos cinco anos, a reencontrei, numa entrevista publicada na Internet. Não resisto à transcrição de alguns excertos, para que entendais o porquê de eu me manter esperançoso, apesar dos pesares. Muitos anônimos educadores, como  

a Gina, davam-me ânimo para não desistir, nos ignominiosos idos de vinte: 

“Se assumirmos unicamente a narrativa de que só houve perdas, o que a gente perde é a chance de aprender. A concepção de educação que temos interfere na maneira como avaliamos esse momento. Para a nossa educação de base colonial, bancária e instrucionista, e que encara o processo educacional como entrega de conteúdo, realmente ficamos preocupados com 2020, e dizemos que foi um ano perdido que precisa ser recuperado. 

Uma professora querida contou que tinha uma aluna que não fazia as tarefas, e foi atrás: essa menina tinha sido despejada de um imóvel e estava morando em uma lona no meio do nada. A gente fala de escola na pandemia como se fosse possível no meio de uma crise as crianças seguirem aprendendo como se nada estivesse acontecendo. Então, é preciso entender a escola como um braço fundamental das redes de apoio e entender que a escola ocupa espaço de muita responsabilidade, por chegar a todas as crianças e adolescentes, antes dos outros entes. 

Os nossos problemas educacionais são, antes de tudo, problemas de desigualdade social, que tem origem no racismo estrutural. Então, a nossa desigualdade tem cor. Quatro quintos da nossa história foi escravocrata. Depois, o Brasil criou mecanismos e leis para impedir a inclusão social e promover o extermínio de pessoas negras, orientado pela lógica de eugenia. 

Novas tecnologias a serviço de velhas práticas podem produzir uma educação ainda mais bancária, instrucionista e tecnicista, e o professor pode ser reduzido a um burocrata do currículo e o estudante a tarefeiro. Promover pedagogia digital significa promover aprendizagem, ou seja, criar interação, vínculo, pertencimento, e colocar o estudante como protagonista do processo. No Brasil existe uma falsa dicotomia: se uma escola for comprometida com a aprendizagem, não pode ser afetuosa e democrática. O estudante só vai se abrir para o conteúdo quando se sentir abraçado, acolhido, pertencente, e isso vale para qualquer fase da educação. 

É interessante pensar em um trabalho integrado e intencional com um currículo de transição. Muitas escolas criaram processos e metodologias que não existiam antes, mas se não parar e refletir, esses aprendizados se perdem. Não basta falar sobre voltar para a escola ou não. Precisamos discutir como, a partir dessa crise, podemos aprender a tornar a escola mais qualificada, mais comprometida com a aprendizagem, alinhada com a ideia de que temos responsabilidade social, e de que ela não caminha sem as políticas públicas que a apoiam”.

 

Por: José Pacheco