São Gabriel de Goiás, 25 de julho de 2040

Na última das cartas para a Alice, eu vos dizia que ela marcaria o reinício da vossa história de vida. A vida é uma história sempre inacabada, poderemos conferir-lhe diferentes desenlaces, poderíeis dar-lhe quantos diferentes desfechos lhe quisésseis dar. Bastaria que não vos confinásseis nos estreitos limites do entendimento das coisas e dos seres desse tempo da proto-história da humanidade.

Para que entendais esse tempo feito de medo e solidão, deixo-vos com mais alguns excertos do Manifesto da Denise. Para vos dizer que havia educadores que cumpriam a Vida, dando-lhe sentido. Que se respeitavam, que preservavam a sua dignidade pessoal e profissional, que propunham novos rumos para a sua Vida e a dos outros. Eis o que proclamavam:

“Pela existência palpável da vida, queremos a revolução dos Sem Medo. Queremos que a Declaração Universal dos Direitos Humanos seja. Caminhamos… Quase nunca somos ouvidos. Vivemos através do que dizem que devemos fazer. Adote esse livro. Siga essa apostila. A orientação da escola diz que está na hora de realizar provas. Mas nunca perguntamos: Qual o sentido dessa escola? Qual o sentido desse currículo, dessas provas, desses horários? Nunca perguntamos: qual o meu sentido de estar aqui, nesse momento presente, histórico, apenas observando a crise humanitária, que 2020 está desvelando.

Temos a ciência, mas codificam como magia. A transformação permanente do tabu em totem, da Verdade em mentira. Quem merece passar de ano? A fixação no progresso por meio do “ele vai precisar disso no futuro”…

É a mentira muitas vezes repetida que nos amedronta. Cadê a vacina contra as escleroses urbanas, contra a pseudo Educação? As ideias reagem, queimam a gente por dentro. A nossa independência ainda não foi proclamada!

Caros colegas, estamos fazendo esse chamamento: #semmedodedizernão! É uma campanha que pretende fortalecer Professores e Professoras a se declararem contrários ao retorno às aulas, nesse momento. Já deixamos passar tempo demais sem nos posicionarmos”.

Fazendo eco dessas palavras, regresso, não ás aulas, mas às metáforas…

Nesses conturbados tempos da pandemia, um rouxinol de nome Góis – não é aquele em que estais a pensar e que a Santa Inquisição assassinou, mas um seu homónimo mais discreto – cantava que não se vendem certas estrelas, nem dunas de areia… Por sabermos isso, o silêncio que nos pudessem impor cantaria, num secreto jardim, melodias imperceptíveis aos ouvidos dos pássaros sem alma.

Por falar em jardim e daquilo que de dentro dele vem, veio-me à memória um conto escrito pelo Óscar sobre um pássaro que voou acima das palavras habituais. Falava-nos de um rouxinol que, num infausto instante, escutou a voz de um adolescente apaixonado, que reclamava uma rosa vermelha para oferecer à sua amada.

O rouxinol voou, urgente, em busca da rosa encarnada, sem lograr encontrá-la. A roseira queixou-se de que o Inverno lhe gelara a seiva e lhe queimara todos os botões. Apercebendo-se da imensa bondade do pássaro, disse-lhe que seria possível transformar uma rosa branca em rosa encarnada. Bastaria que o rouxinol aceitasse tingi-la com o seu sangue, deixando que um espinho lhe trespassasse o coração, enquanto cantasse o derradeiro canto. Seria o sangue da avezinha que, saciando a sede de cor daquela rosa, a iria carminar.

O Óscar Wilde era mesmo… “wild”. E, na puritana época em que viveu, sofreu as consequências da sua ousadia, quase teve o destino do rouxinol. Mas, não vos contarei o desfecho dessa estória. Inventai-a!

Por: José Pacheco