Jussara, 26 de julho de 2040

Nos idos de vinte, um relatório da UNESCO lembrava que a pandemia revelou que vivíamos num mundo frágil, complexo e inseguro. Num cenário de total imprevisibilidade, que decisões deveriam ser tomadas, que afetassem a vida em comum? Dever-se-ia voltar ao prédio da escola, em agosto ou em setembro, com focos de infeção ainda ativos?

O bom senso e o respeito pela Vida aconselhavam que o não fizéssemos. Mas, já havia anúncios de “regresso às aulas” marcado para esses meses. Artifícios vários serviam de argumento: funcionamento por turnos, turmas reduzidas a metade, contratar mais professores, não permitir contatos no recreio, eliminar intervalos, aumentar as atividades online… Consciente dos riscos e do ridículo desses e de outros remendos instrucionistas, um diretor de escola manifestava preocupação:

“Espero que não estejam a brincar com a saúde das crianças!”.

Qualquer justificativa servia para viabilizar um precoce “regresso às aulas”, até mesmo radicais propostas como despedir professores e usar robôs, ou substituir auleiros por inteligência artificial: “Há sempre a hipótese de fazer somente ensino on-line. A manterem-se os atuais números de infectados, seria única hipótese inteligente”.

O debate nada tinha de “inteligente”, não ultrapassava o limite da indigência mental: “Agradeço a explicação gráfica mas devo dizer-lhe que é muito ingênua e ineficaz, para provar o seu ponto de vista. Ponto 1. Os utilizadores estão de costas e não há, portanto, possibilidade de contágio (saliva). Ponto 2. E se as mesas, em lugar de em fila, estivessem desalinhadas? Seria possível assegurar a manutenção da distância de um metro entre alunos, obrigados a olhar para o quadro, sentados sozinhos em mesas duplas?”

Estapafúrdias propostas e míseras sugestões de especialistas de ocasião aconselhavam que, nas salas de aula, onde se havia colocado as mesas em círculo, se retomasse o enfileiramento, para que os alunos não ficassem com dores nas costas de olhar para o quadro, nem “corressem o risco de poderem ficar virados uns para os outros, a respirar na cara do outro” (sic). Aventava-se a hipótese de reduzir o número de alunos por turma ou optar pelo desdobramento em três turnos. Mas, “especialistas”, os administradores e os gestores não ousavam alterar programas informáticos, que haviam organizado horários e turmas, nem conseguiam pensar soluções fora do prédio da escola, ou para além do modelo instrucionista.

Era urgente encontrar soluções de rentabilização de espaço, porque, por imperativos de ordem economicista, o regresso à indispensável escola presencial não poderia ser adiado. Mas, como assegurar equilíbrio entre a aprendizagem, a educação, a saúde e a segurança, em tempo de pandemia? Como não agir leviana e displicentemente, não criar situações de risco para alunos, famílias e profissionais do desenvolvimento humano?

Queridos netos, permiti que, mais uma vez, recorra às metáforas. Porque, neste início da década de quarenta, ainda me custa pensar que tudo isso aconteceu. Precisamos de duas décadas de porfiados esforços, para reconfigurar a escola e refundar a educação, para a todos garantir o sagrado direito à educação.

Então, metaforicamente, vos digo que, nos anos que sucederam aos dramáticos acontecimentos, que venho narrando, as gaivotas que sofreram o fustigar das asas por ventos contrários aprenderam no canto das almas sensíveis a arte de voar contra ciclones e tufões, sem esquecer que o importante não é a velocidade, mas a direção e o sentido do voo.

Por: José Pacheco