Maricá, 1 de agosto de 2040

Na noite do dia 31 de julho, correspondendo a uma meritória iniciativa de homenagear heróis, aplaudi os professores, como já tinha aplaudido os técnicos de saúde. No mesmo dia, recebi uma mensagem com uma canção em anexo, cujo estribilho começava assim: “Na sala de aula é que se forma o cidadão”.

Que tipo de cidadão era “formatado” em sala de aula? Cem anos depois do nascimento de Darcy Ribeiro, mais de meio século após a construção dos seus CIEP, ainda era preciso lembrar o óbvio? Vi-me na necessidade de alertar amigos, para que não replicassem (nesse tempo, “viralizassem”) subliminares mensagens, portadoras de traços culturais caducos.

Naquele tempo, medidas de manutenção do desperdício de dinheiro e de gente serviam para “formar cidadãos”, na escola da sala de aula de um Brasil de trinta milhões de analfabetos. Ensinos híbridos e outras medidas de retrocesso perenizavam o velho paradigma escolar, reprodutor de oprimidos e opressores, que o malogrado secretário de educação Paulo Freire tanto denunciou.

Nem na última década do século passado, aprovada que fora a Lei de Diretrizes e Bases, os reformadores escutaram os apelos do Darcy. Ele havia sofrido o exílio, quando o seu país dormia distraído, sem perceber que era subtraído em tenebrosas transações. E, já quando o câncer consumia o seu último sopro de vida, a lei que fizera aprovar nos idos de 96 continuava sendo letra morta.

Vinte anos depois, os autores de uma anunciada reforma acreditavam que o sistema iria melhorar com “boletins e reprovações”, quando, “pelo menos um período por dia fosse dedicado ao desenvolvimento de atividades interdisciplinares”, quando houvesse “espaço para os professores trabalharem por projetos em algumas disciplinas”, ou quando “no último ciclo, os alunos fossem protagonistas do próprio aprendizado”. E somente no último ciclo aconteceria a “emancipação social e cidadã dos alunos” (sic!).

Subi o morro de Santa Teresa. Na sede da fundação, que leva o seu nome, reli mensagens do Mestre Darcy:

O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso (...) A crise da educação brasileira não é uma crise, é um projeto. Havia uma malévola intenção por detrás das iniciativas de política educacional. E mais do que um projeto, a crise era um “caso de polícia” – os desgovernantes agiam à margem da lei.

Restava saber se os reformadores agiam por ignorância, ou se eram loucos. Einstein nos avisava de que “a maior insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Súbitos acessos de loucura poderiam ter ocorrido. Por exemplo, quando, como de algo sério se tratasse, políticos apregoavam na comunicação social que “iriam acabar com a progressão continuada”. Como seria possível acabar com algo que nunca havia começado? Lamentável era a manutenção da “aprovação automática”, prática que os desgovernantes fomentavam.

Darcy Ribeiro faleceu em Brasília, em fevereiro de 1997. No seu livro de memórias escreveu:

”Termino esta minha vida já exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Por: José Pacheco