Catalão, 31 de julho de 2040

Queridos netos, nos idos de 2000, entreguei-vos um montinho de cartas, com a recomendação de que, quando a decifração dos códigos da linguagem dos homens vos permitisse, as irieis ler e sobre elas refletir. Na última das cartas, disse-vos que que não seria fim das estórias. E retomei a sina de avô contador, quando um vírus nos remeteu para o único modo de comunicar: o virtual.

Por finais de julho do distante 2020, soubemos que produção de petróleo no Brasil caíra 6,5% devido à pandemia. Que o ministro da Educação estava infetado pelo vírus, que já fizera mais de noventa mil vítimas. E que uma pesquisa realizada na Coreia do Sul sugeria que a reabertura das escolas iria provocar mais surtos epidêmicos e pandêmicos. Entretanto, muitas vozes reclamavam o “regresso às aulas” e os desgovernantes anunciavam a exposição das crianças a uma praga mais letal do que a covid-19 – a praga do instrucionismo.

Por essa altura e segundo dados do Ministério da Saúde, a capital federal tinha cerca de cinquenta mil casos de covid-19 e contava mais de seiscentas mortes decorrentes dessa doença. Mas, o governador dizia “estar preparando tudo, vendo todos os protocolos”. Que iria reunir com técnicos de diferentes áreas, para discutir a reabertura de salões, academias, bares, restaurantes e escolas e privadas. As escolas particulares acumulavam prejuízos, professores eram despedidos, ou substituídos por robôs. A educação virara mercadoria e a Economia ditava as suas leis. No WhatsApp, a minha amiga Juliana perguntava: E as escolas públicas também vão reabrir?

A situação não se alteraria com o dito “regresso”. O instrucionismo, que a administração impunha às escolas, iria continuar a causar mais vítimas do que as vidas ceifadas pelo covid-19. Os indicadores dispobíveis davam conta do genocídio educacional causado pela escola da aula. E a tragédia anunciada iria manter a situação de calamidade educacional, que se arrastava, há mais de dois séculos.

No Distrito Federal a situação poderia ser considerada de catastrofe. Mais de metade dos estudantes encontravam-se abaixo do “nível dois” em matemática, o patamar que a OCDE estabelecia como necessário para que se pudesse exercer plenamente cidadania. O nível de proficiência em português e matemática – o percentual de alunos de nono ano com plenas condições de compreender e de se expressar – descera a níveis absurdos. Os índices de analfabetismo continuavam elevados. No quinto ano do ensino fundamental, muitos alunos estavam com mais de dois anos de defasagem. Jovens em idade escolar não estavam matriculados, por alegada “falta de vaga”.

Anos a fio, impondo a prática do modelo da ensinagem, a administração educacional semeara analfabetismo, ignorância, corrupção intelectual e moral. Obrigando a “regressar à sala de aula”, iria expor avós e familiares dos “grupos de risco” ao perigo de contágio pela covid-19. Iria voltar a expor as crianças e os jovens a práticas escolares obsoletas. Se, numa aula, quase nada se aprendia, por que deveriam as crianças regressar às aulas? Para quê regressar às aulas? Para se continuar a destruir futuros? A administração não responderia a estas e a outras pertinentes perguntas. Continuaria, por mais alguns anos, a destruir vidas. Impunemente!

Só quando, depois de extintos os ecos do tempo da história, os homens acedessem à era do espírito, iriam entender a fragilidade dos paradigmas que sustentavam as suas ciências, reconhecer como aparentes as suas imutáveis realidades.

Por: José Pacheco