Fuzeta, 2 de julho de 2040

Quando iniciava as minhas conversas (a que chamavam “palestras”), eu perguntava:

O que quereis saber?

Quer houvesse cem, quer houvesse mil educadores no auditório, seguia-se um pesado silencio. Apenas uma vez, alguém ergueu o braço, para intervir.

Não é bem uma pergunta. É mais um comentário! – disse a professora.

Faça o favor! – convidei-a a fazer o comentário. O meu livro “Caminhos para a Inclusão” acabava de ser publicado. E o congresso era sobre… inclusão. Eis o comentário:

Eu acho que o senhor é a pessoa indicada para abrir um congresso sobre inclusão.

Confesso que senti alguma vaidade. Agradeci:

Muito obrigado, colega!

Ainda não concluí o comentário! – replicou – Eu acho que o senhor é a pessoa indicada para abrir um congresso sobre inclusão, porque o senhor é deficiente.

Gargalhada geral! E o resto do inusitado diálogo:

Por que acha que eu sou deficiente?

Porque eu já vi que o senhor é estrábico.

E por quê… deficiente? Deficientes são as mentalidades e os contextos. Quando tentei ensinar algo a um surdo, compreendi que, se houvesse ali um deficiente, seria eu, que não sabia a linguagem de sinais. Quando uma aluna com paralisia cerebral chegou à Ponte, compreendemos que a Ponte estava deficiente de uma rampa de acesso. Por que diz que eu sou deficiente?

Porque o senhor vê menos do que eu.

Então, a colega considera que o deficiente é aquele que vê de um só modo, que “vê menos” do que um “normal”?  

Exatamente! E eu até tenho um deficiente na minha sala de aula – respondeu.

Face à peremptória afirmação, contei-lhe um episódio. Eu estava num aeroporto, olhando um televisor, enquanto esperava para embarcar. Um daqueles seres humanos, que vivem sozinhos, que não veem outros seres, para quem os outros são paisagem, objetos transparentes, foi colocar-se entre mim e o aparelho de televisão. Perguntei à minha interlocutora:

O que faria a colega, nessa situação?

Eu mandaria a pessoa sair da minha frente, que tivesse respeito por mim.

A colega iria criar uma situação de conflito, certamente.

Claro! Mas a pessoa deveria entender que eu estava no meu direito…

Eu não precisei de chamar a atenção da pessoa.

Não? E… então?

Foi fácil. Fechei o olho direito e a TV “deslocou-se para a esquerda”, permitindo-me continuar a ver a tela. A senhora colega seria capaz de fazer isso?

Não!

Então, quem é o “deficiente”? Eu, que vejo de três maneiras, ou a senhora, que vê de um só modo? Quem “vê menos”?

Moral da estória: um ponto de vista é a vista a partir de um ponto… somos todos diferentes. O ser humano é único e irrepetível e deverá ser “incluído”, escolar e socialmente, algo impossível de concretização numa aula. Se, na sala de aula da minha interlocutora, havia algo “deficiente”, talvez fosse a prática deficiente da professora.

Mas, há professoras e… professoras. Por essa altura, recebi um e-mail, que dizia:

Se somos todos diferentes, por que tratá-los da mesma maneira? Com 25 dentro da sala, como posso chegar a todos, em 50min? E há quem diga, mais vale isso do que não ter trabalho. E que não devemos refilar.

Nos idos de vinte, acoitados em esconsos gabinetes, “superiores hierárquicos”, enfermos de corrupção intelectual e moral, impunham às escolas e aos professores práticas deficientes. E, impunemente, cometiam assédio moral. Essa professora fora ameaçada pelos seus “superiores”. Pensava desistir de ser a professora que sonhara ser:

Eu penso, que se calhar é melhor eu ter outro trabalho, pois estou a sentir que não faço o meu trabalho como o meu coração manda e não consigo viver com essa dor.

Por: José Pacheco