Octogonal do Distrito Federal, 01 de junho de 2040

Os projectos de mudança e de inovação sempre estiveram sujeitos à erosão do tempo e das conjunturas. No início de junho de 2020, ainda vivíamos tempos sombrios. Aproveitando marés de ignorância e o fracasso das chamadas “tele aulas”, os adeptos do dito “ensino tradicional” atiraram-se com inquisitorial fúria contra o que não conseguiam entender, mas que os perturbava.

Ainda não tinham entendido que havia mais do que um modo de aprender. Ainda não se tinham apercebido de que, no chamado “terceiro mundo”, a ignorância, aliada a condições de subvida, assassinava milhões de Einsteins de tenra idade. E de que, no mundo dito “civilizado”, a escola da aula matava prematuramente outros tantos. Havia quem insistisse em estéreis processo de adestramento cognitivo, no acumular de conteúdo desconexo e abstrações coladas com mnemónicas e copypast. Ainda havia quem transformasse o ato educativo numa corrida de obstáculos, com vencedores e vencidos, à mistura com Ritalina e suicídio.

Janusz Korszak, que foi professor e pereceu nas garras da besta nazi, escreveu: A escola é um pobre comércio de medos e ameaças, boutique de bugigangas morais, botequim onde é servida uma ciência desnaturada, que intimida, confunde e entorpece. E alguém escreveu (não me lembro onde li…) que os engenheiros que conceberam as câmaras de gás e os médicos que coordenavam o genocídio nos campos da morte nazis foram alunos da escola “tradicional”, e que foram “bons alunos”.

Em tempos sombrios, aqueles que não admitiam mais do que um modo de fazer educação suspendiam a hibernação de tempos luminosos e revelavam o seu ódio à diferença. Muitos daqueles que se aperceberam do cheiro nauseabundo da decomposição da escola “tradicional” e ousaram reinventá-la acabaram vítimas da mediocridade e da maledicência. Pestalozzi foi humilhado. Tolstoi assistiu impotente ao encerramento da sua escola, por ordem do czar. Ferrer, que acreditava ser possível colocar humanidade no acto de aprender e ensinar, foi perseguido e executado, no dealbar do século XX. Korszak foi deportado, Anísio foi assassinado. Freire e Agostinho se exilaram… e a “caça às bruxas” continuava.

Aires Gameiro dizia que ”só os inconformistas com poder criador ajudam, em cada época, a quebrar algemas da sociedade, injustiças e cegueiras, que não deixam ver os outros como pessoas”. Mas, eram raríssimos os que se arriscavam no submundo da escola da aula, onde a mudança necessária se processava. Os núcleos de projeto (já vos falei deles) se incluiam nesses “raríssimos” e desenvolviam o que chamavam currículo da consciência planetária. O processo de auto formação harmonizava-se com necessidades e problemas da sociedade contemporânea e do planeta. Tendo em consideração os dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e as quatro dimensões da sustentabilidade (social, econômica, ecológica e visão de mundo), eram desenvolvidas habilidades socioemocionais, assegurando, através do desenvolvimento de competências transversais, o pleno desenvolvimento pessoal e social do ser humano. A Alice, que é psicóloga, entende bem esta arenga. E tu, Marcos, também poderás entendê-la. Escrevi um livrinho sobre isso. Tinha por título “Novas construções sociais de aprendizagem”. Se tiver forças para voltar a Portugal, te levarei esse livrinho. Para que saibais que, mesmo em tempos sombrios, ainda havia sinais de amorosidade e de resiliência.

Por: José Pacheco