Sudoeste, 02 de junho de 2040

O Prós e Contras era um programa de grande audiência da televisão portuguesa. Na terceira semana de maio de 2020, o assunto a debater era a educação em tempo de pandemia. Logo no início do programa, o locutor disse que, com a pandemia “o ensino não iria voltar a ser o mesmo e que os pedagogos defendiam estarmos perante uma grande oportunidade de alteração do currículo”.

Um amigo, que eu muito prezava, participou no debate e asseverou que “se foi agravando o fosso entre a maneira como se aprendia na sociedade e a maneira como se aprendia na escola”, denunciando a obsolescência do modelo de ensinagem.

De Barcelona, um professor universitário afirmava: “os conteúdos pelos conteúdos não têm sentido, são uma ferramenta para conseguir algo” E concluía dizendo que “a educação deveria voltar a centrar-se na pessoa e não no conteúdo”. Era evidente que “não voltaria a centrar-se na pessoa”, porque nunca tinha deixado de estar centrada no professor e no conteúdo. A começar pela universidade, que ele representava.

Nesse programa, também se disse “ser errado transferir o modelo de sala de aula para o digital”. Mas, no palco do programa, vi gente ligada a um projeto de faz-de-conta de “autonomia e flexibilidade curricular”. E a minha preocupação não se desvaneceu com o discurso de bom senso do meu amigo e do professor universitário.

O responsável ministerial disse que “o virtual não substituiu o presencial”. Pois não! Então, por que razão o ministério continuava a impor a transposição das aulas presenciais para o ambiente virtual e não aproveitava “a grande oportunidade” de juntar presencial com virtual, sem aulas?

Estávamos em maio e, em Portugal, no tempo em que havia ano letivo, ele começava em setembro. O representante do ministério informou que o presencial deveria voltar no ano letivo seguinte. Só não disse como voltaria. No Distrito Federal, já se sabia como seria… voltaria sob o signo da mesmice das aulas. O documento de “Gestão Estratégica” não augurava nada de bom e a secretaria desprezava as sugestões de cidadãos atentos ao disparate. Tive acesso a uma excelente contribuição, enviada à secretaria por uma professora e transcrevo excertos de uma cópia, que guardei num velho computador:

A Secretaria fala muito sobre o protagonismo dos estudantes. Por isso, deixo registrado o depoimento de um deles: “Sugiro não investir dinheiro em canais de televisão, mas sim em uma plataforma online de alta qualidade e com suporte rápido, acessível a todos os estudantes; Essa proposta de tele aulas não deve ser uma cópia do telecurso 2000, vocês precisam se adaptar aos padrões mais recentes de criação de mídia online. Nenhum aluno quer perder tempo, vendo algo mal feito, ainda mais na era digital, onde você encontra milhões de professores fazendo um trabalho melhor no Youtube que o oferecido pela Secretaria.”

Este estudante e muitos outros estão ansiosos para serem ouvidos. O “plano de estratégia” da secretaria só terá sentido e significado para os estudantes se, de fato, se considere o que os jovens têm a dizer. Caso contrário, este documento será apenas mais um documento a ser engavetado. Mantendo as práticas características do modelo da escola do século XIX, colocamos os estudantes desta rede cada vez mais distantes da aprendizagem. Neste sentindo, pergunto: não seria este momento de crise propício para um “novo início?

A resposta foi nenhuma. A administração sofria de transtorno de comunicação social.

Por: José Pacheco