Rocinha, 23 de junho de 2040

Perguntei a um jovem aluno por que razão dizia que morava na comunidade e não na favela. Eis a resposta:

Tio, eu digo que vivo na comunidade, porque dizer favela é feio.

Por que é feio? – perguntei.

Isso não sei – respondeu o jovem. E eu arrisquei manter o diálogo:

Sabes onde surgiu a primeira favela? Quem a fez?

O jovem lá foi ao encontro dos livros, da Internet e dos saberes comunitários. Voltou acompanhado, pois outros jovens se interessaram pelo assunto. Traziam um mapa do Rio. Situaram o local da primeira favela. Explicaram por que militares se instalaram no Morro da Providência.

Quem eram esses militares e de onde vinham? – inquiri.

Do Rio, partiram para Canudos, numa “missão de pesquisa”. Conheceram um António Conselheiro professor, que lera a biografia do inglês Thomas More. A curiosidade os levou até à Inglaterra, no paradeiro do Thomas. A “Utopia” de More e o seu fim no cadafalso atraíram o estudo de fenômenos de natureza religiosa. Os jovens estudaram os albigenses e os cátaros, desembocaram na Inquisição e na fuga do Padre Vieira, no porão de um navio, que aportou no Maranhão. Chegados a São Luís, o professor de Matemática tomou o leme da pesquisa e conversou sobre milhas marinhas e outras medidas…

Quando leram alguns sermões do Padre Vieira, os jovens compreenderam que ele lograra ludibriar a Inquisição, recorrendo a alegorias. E a professora de Língua Portuguesa aproveitou a circunstância e o interesse dos jovens, para mediar o estudo de metáforas e outras figuras de estilo…

O professor de História aproveitou o fato de Vieira ser um jesuíta e combinou com os alunos uma incursão às Missões do sul e às guerras que por lá houve. Os jovens biografaram Bento Gonçalves e chegaram ao conhecimento do Duque de Caxias e da Guerra do Paraguai. Perguntaram se era verdade que, no fim dessa guerra, o Conde d’Eu mandara “cortar a garganta a alguém”, ou se o príncipe-consorte queria extinguir a escravidão no Paraguai. Confesso que não sei que rumo terá levado esse viés investigativo. E que, por isso, perdi uma oportunidade de aprender.

No regresso da “expedição”, os jovens quiseram saber a origem de um nome de cidade tão bonito como Florianópolis. E depararam com um dos personagens centrais do drama de Canudos: Floriano Peixoto. Descobriram por que razão os habitantes do Desterro “homenagearam” o marechal, trocando o nome da ilha. Ao assistir a um vídeo sobre a Guerra de Canudos e pela leitura da “Guerra do Fim do Mundo”, os jovens alunos entenderam o que era um genocídio. E, ao estudar a Primeira República e a relação de Floriano com a Guerra de Canudos, regressaram a Vaza-Barris e à obra do engenheiro Euclides da Cunha…

Rumei ao chão de outra escola, deixando encomendada a busca da origem do termo “favela”. Soube, pela professora de Física que os alunos “acharam que tinham achado” o seu significado onde era abundante esse arbusto: no sertão nordestino. O professor de Filosofia contou-me que os jovens argumentaram que, sendo a favela muito resistente ao calor tórrido do sertão, simbolizaria a “resiliente sobrevivência” (palavras suas) das comunidades. Recomendei que aprofundassem essa romântica hipótese. Mas fui avisando que a favela era uma espécie típica da caatinga. E, ao que julgava saber, a cnidoscolus quercifolius dava-se muito mal com os ares do Rio de Janeiro…

Quando no chão das escolas, eu perguntava a uma criança “O que queres saber?”, ela respondia com outra pergunta:

“Eu posso dizer o que eu quero saber?”

Não conseguis, queridos netos, imaginar o quanto isso me desgostava, me magoava.

Por: José Pacheco