Quilombo do Campinho, 15 de julho de 2041

Os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) foram parte de um projeto educacional concebido por Darcy Ribeiro. Tinha como objetivo oferecer ensino público de qualidade em período integral. Darcy considerava-os “uma revolução na educação pública do País“. 

Os CIEP’s talvez tivessem sido prenúncios de comunidades. Esses edifícios escolares deveriam funcionar em tempo integral, num horário entre as oito e as dezessete horas, oferecendo oportunidades de aprendizagem do currículo regular, bem como estudos dirigidos, educação físico-motora, atividades culturais e recreativas,. 

No segundo governo de Brizola, alguns CIEPs foram equipados com piscinas. E forneciam refeições completas, além de atendimento médico e odontológico. Visava-se tirar crianças carentes das ruas, oferecendo-lhes “pais sociais”.

Sucessivos desgovernos não deram continuidade ao projeto, desvirtuando a sua principal característica: a educação integral. Os CIEPs tornaram-se escolas comuns, com o ensino em turnos. Alguns, parcialmente concluídos, foram abandonados. Para melhor compreensão do projeto e da incúria do poder público, sugiro que possais ler um textinho chamado “Cieps: a educação como prioridade”.  

Nos anos sessenta, os jornais do Rio registraram uma saudável polémica entre Darcy e Lauro. Apesar de reconhecer a genialidade do projeto arquitetônico concebido por  Niemeyer, o mestre Lauro aconselhava que o projeto do Darcy não se limitasse a um exercício de “pedagogia predial”

Sempre que eu passava a Puruba, a caminho de Trindade e Paraty, parava no restaurante do Quilombo do Campinho. Mas, não visitava o prédio da escola, enquanto a memória de Darcy ali não fosse celebrada. Porque, ao sonho do visionário Darcy, Lauro acrescentava uma proposta teórica esboçada no livro “Escola de Comunidade”, publicado na década de 1960. Somente trinta anos depois, os anglo-saxônicos e os catalães conceberiam as suas “comunidades de aprendizagem”, misturadas  com contraditórias práticas do sarro instrucionista. 

Há cerca de trinta anos, partilhei o quotidiano de quilombos e de comunidades indígenas. Com tristeza, vi como a escola instrucionista as descaracterizava. As práticas escolares não tinham por referência um território singular. Não questionavam, nem criticamente superavam a forma escolar e a sua tendencial extraterritorialidade. A aprendizagem era encarada, quase exclusivamente, num registro didático e técnico. 

Pensar em “território educativo” deveria ser pensar em uma ação educativa intimamente relacionada ao contexto social no qual a escola se inseria. Como pensar uma comunidade sustentável e uma gestão pública compatível com os desafios de transformação necessária a uma nova forma de relação do cidadão com o seu habitat? A resposta seria: com uma nova educação para uma nova cidade. 

Pensar uma educação de boa qualidade pressupunha integrar múltiplas dimensões da atividade humana no ato de educar e de aprender, bem como rever o modo como o subsistema de educação propiciava ao ser humano a expressão criativa e o protagonismo na vida social.

Enquanto, para alguns, essa utopia era um ideal inatingível; para outros, trata-se de uma meta a ser concretizada, de um sonho perfeitamente realizável. A superação do paradigma instrucionista era uma utopia necessária. Há mais de um século, educadores se dedicavam a efetivar práticas educativas autônomas, sustentáveis, favoráveis à formação de seres humanos integrados à vida, criativos, solidários, felizes. 

 

Por: José Pacheco