Tavira, 4 de maio de 2041

Como vos disse na cartinha anterior, eram sete as perguntas a fazer, para tentar compreender um estranho fenômeno, o da manutenção do instrucionismo. Nos tempos que correm, custa a crer que o modelo da ensinagem ainda vigorasse nos idos de vinte, disfarçado de “modelo híbrido”, mas era a moda do momento.

Sete perguntas o desconstruíam. Eis a primeira: Por que se aprende? 

Essa era a pergunta básica. Por que razão a criança aprende a andar, a falar, a sorrir? Não será por necessidade? Necessidade de comunicar, de se movimentar, de ser aceite?

Quem aprende? Aquele que, estático, dependente, passivo, se comporta como objeto de ensinagem, entre as quatro paredes de uma sala de aula? Ou aquele que se assume na dignidade de sujeito de aprendizagem e se compromete consigo, num projeto de vida com outros?

Onde se aprende? Dentro de um prédio a que chamavam “escola”? Ou em qualquer lugar onde projetos acontecem? Uma escola transformada, os lares, as praças, a floresta, as bibliotecas e muitos outros locus de aprendizagem estão aí, disponíveis.

Quando se aprende? Entre os seis e os vinte e tal anos de idade, ou ao longo da vida? Em cinquenta minutos de aula, ou nas vinte e quatro horas de cada um dos trezentos e sessenta e cinco dias de cada ano?

Com o que quê e com quem se aprende? Com aulas sensaboronas, ou com a busca de informação, a prática da pesquisa? Com auleiros palradores, ou com pessoas capazes de conosco construir projetos, acompanhando processos de descoberta, de mediação? Quando o discípulo está pronto… o mestre surge.

Como se aprende? Ouvindo alguém ditar algo a que não atribuímos significado, ou quando a aprendizagem, à boa maneira de Vigotsky e Bruner, é significativa, diversificada, ativa, integradora, socializadora?

Como sabemos que aprendemos? Retendo informação inútil na memória de curto prazo, para ser debitada numa prova? Ou produzindo conhecimento traduzido nas evidências de aprendizagem de um portfólio?

O termo “aprender” advém do latim ”ad”, que significa “juntar” e de “prehendere”, que significa “levar para junto de si”, ou, metaforicamente, “levar para junto da memória”. Por seu turno, o verbo aliado “apreender” tem origem em “prae”, (“à frente”), e “hendere” (de “hedera”, a hera, uma planta trepadeira que se prende às paredes, para poder crescer).

Numa prática autoral, “apreender’ é ato de captura, de assimilação consciente; “aprender’ é ato contínuo, de autoformação. 

Ninguém aprende sozinho. Muito menos com uma máquina. Um computador não pensa, não sente. Aprendemos na intersubjetividade, na relação com o mundo, no estabelecimento de vínculos cognitivos, emocionais, afetivos. Aprendemos no contexto de comunidades, no re-ligare da família com a sociedade e a escola. 

Os primeiros mil dias de vida são fundamentais para a saúde do indivíduo durante o resto de sua vida, são decisivos na sua formação. Sabíamos que a presença de um parente melhorava as taxas de sobrevivência de uma criança, se a sua mãe morresse. Estudos dos idos de vinte concluíam que uma criança tinha mais probabilidade de crescer feliz, se acompanhada pelas avós. Por que se separava avô e neto de tenra idade? Por que se encaixotava crianças e se asilava os velhos?

No cuidar dos netos, os avós transmitiam ensinamentos, desde aprender a caminhar até ao contar estórias. A comunicação emocional intergeracional constituía-se em pilar básico de aprendizagem dos netos e de correção dos erros cometidos com os filhos. 

Quando a minha neta Alice nasceu, comentei:

“Agora, que já estava apto para ser pai… virei avô.”

 

Por: José Pacheco