Almeirim, 15 de maio de 2040

Neste mês, mas em 2020, o ser humano descia aos patamares mais profundos da bestialidade. Homens armados atacaram maternidades dos Médicos Sem Fronteiras, “para matar mães”. A mídia assim descrevia esse hediondo crime: 24 pessoas foram assassinadas: recém-nascidos, mães e enfermeiras. Os atacantes entraram nas maternidades, disparando contra as mulheres que estavam nas suas camas. Onze mães foram mortas, três das quais estavam na sala de parto prestes a dar à luz ao seu bebé”.

A crise desencadeada pelo covid-19 era apenas uma parcela de uma crise civilizacional. Vivíamos a proto-história da humanidade. Na segunda semana de maio, um estudo divulgado no Reino Unido dava conta de que a pandemia estava descontrolada em mais de metade dos estados brasileiros. Os pesquisadores recomendavam que o país tomasse medidas mais duras, para evitar a propagação do vírus. Esse estudo referia que o fechamento das escolas e a diminuição da mobilidade da população ajudaria a reduzir a propagação do vírus, mas que a previsão para os dias seguintes era preocupante.

No Rio, um dos “estados descontrolados”, professores lançavam um irresponsável convite aos alunos: “Ide até a porta da escola, rapidinho, porque não vai ter problema!”. Por insana decisão ministerial, as inscrições para o enem estavam abertas. Na Internet e na biblioteca caseira, jovens se preparavam para essa nefasta prova, enquanto alunos de escolas públicas, sem acesso à Internet e sem dinheiro, tentavam sobreviver. Mas todos poderiam disputar uma vaga na universidade pública… o amigo Tuck assim descrevia a triste situação:

Os alunos mandavam suas atividades na plataforma e elas iam parar no limbo, porque a plataforma não funcionava, os fazendo gastar os poucos dados do celular. Muitos jovens mal conseguem entender uma orientação. Tenho recebido como devolutivas, até prints de aplicativo da renda emergencial. Essa é a realidade do morador desse país, que foi mal inventado. Sou professor da rede pública em uma escola de periferia. Sou professor num cursinho comunitário pré-vestibular. Hoje, uma aluna queria se inscrever no enem e esbarrou no temido “erro da data de nascimento”, famoso no INEP. Tentei ajudar. Falei para ela ligar no 0800. Nada. O 0800 só atende telefone fixo e ela só tem celular. Tentei eu ligar no fixo. Deixei o telefone fora do gancho, porque cansei de esperar…

Nunca deveremos deixar morrer a utopia, mas confesso que houve momentos em que senti um cansaço acumulado. Assistia à hecatombe da escola, há mais de cinquenta anos. Quase desisti. Era grande a vontade de ir plantar árvores, cuidar dos pássaros…

Decorridos alguns dias, ainda durante o mês de maio desse distante 2020, centenas de professores rejeitaram a imposição de um regresso à mesmice. Com as famílias e comunidades, aprenderam a ajudar a aprender. Num projeto de formação, que ajudei a elaborar, contagiados pelo vírus do Amor e da Coragem, professores recusaram “ensinagem à distância” e desenvolveram aprendizagem na proximidade física e virtual. Em comunidades de aprendizagem, partiram do que eram e do que sabiam fazer. Valorizando a sua competência de dar aula, definitivamente, se emanciparem de um obsoleto sistema de ensinagem e asseguraram a todos o direito à educação.

Parece o final feliz de um conto para a infância: “e foram muito felizes para sempre”. Mas foi isso mesmo que aconteceu. Juro!

Por: José Pacheco