Entregue 10 cachorros a um treinador. O que você pensaria desse treinador se ele não conseguisse treinar 8 desses 10 animais? Qual a chance de você indicar esse treinador para alguém? Se oito animais de um grupo de dez não conseguem ser adequadamente treinados, quem você responsabilizaria: os animais ou o treinador?

Entregue 10 projetos nas mãos de um gestor com uma equipe à seu dispor. O que você pensaria sobre ele se soubesse que 8 desses 10 projetos ficaram incompletos dentro do prazo estipulado? Quem seria responsável pela baixa produtividade: a equipe ou o gestor?

Entregue 10 hectares de terra a um fazendeiro. O que você pensaria desse fazendeiro se ele conseguisse que apenas 2 hectares produzissem bem e os outros 8 fossem produções fracas? De quem seria a culpa da pequena colheita: as sementes ou o fazendeiro?

Você já deve ter entendido onde eu quero chegar, mas se não entendeu, aqui vai…

Entregue 30 alunos nas mãos de 70 professores. Durante 10 anos esses 30 alunos precisam estar aptos como cidadãos e terão 7 professores por ano. Se, após esses 10 anos, somente 6 desses 30 alunos estiverem alfabetizados, o que você pensará desses professores?

– Que absurdo, André Luís! Você está querendo responsabilizar os professores pela má qualidade da educação? Eles já recebem péssimos salários, trabalham muito, são desrespeitados pelos alunos e trabalham em escolas com péssima infraestrutura! Como que você tem a cara de pau de falar uma coisa como essa dos seus colegas de profissão?

Bem… Eu usei 3 situações hipotéticas para poder comparar com uma situação real, mas existe pelo menos um fator que diferencia este último exemplo dos demais. Nenhum cachorro é obrigado a ser treinado. Nenhum funcionário é obrigado a trabalhar em uma determinada empresa. Nenhuma semente é obrigada a germinar. Contudo, todas as crianças e adolescentes são obrigados a frequentar uma escola. Coloque um adulto para fazer uma coisa que ele não quer e veja quanto tempo de atenção você consegue dele. Veja como é difícil despertar interesse quando a pessoa não está disposta a aprender por obrigação.

Muitos alunos não pensam sobre isso, mas o fato deles estarem na escola não é outro senão a obrigação por lei. Se não fossem obrigados a tal, muitos estariam em casa ou trabalhando.

Todo professor sabe que isso está escrito na lei, pois todos leram (ou deveriam ter lido) a LDB, que determina a matrícula de crianças em instituições escolares.

Sabendo disso e do desprezo que a maioria dos alunos tem pelo ambiente monótono, repetitivo e pouco desafiador das escolas, o que os professores fazem? Por mais absurdo que pareça, eles continuam fazendo o que sempre fizeram há décadas. Eles continuam a dar aulas, cobrando que os alunos copiem do quadro, verificando cadernos, passando vídeos, elaborando trabalhos para as turmas, organizando feiras, etc… O mesmo que meu bisavô viu seus professores fazerem.

Para trabalharem de forma diferente não é preciso um salário melhor ou uma escola com laboratório de informática. Para trabalhar de forma diferente, basta querer trabalhar de forma diferente. Contudo, é extremamente difícil encontrar professores dispostos a rever seus paradigmas educacionais.

No livro “Para que servem as escolas?”, Lauro de Oliveira Lima diz:

“É impressionante a falta de sensibilidade do magistério para os resultados negativos de sua atividade. Nenhum profissional resistiria à constatação diária do fracasso de sua atividade (médico, engenheiro, administrador), mesmo porque o fracasso determinaria o afastamento de sua clientela ou o fechamento da instituição. Em educação, baixo rendimento, evasão, reprovação, perda do conhecimento, demonstração pública do fracasso nos exames… Nada disso abala o sistema escolar ou põe em dúvida a reputação profissional do magistério! Não se sabe, pois, por onde começar a reforma do sistema, já que o magistério não toma consciência do seu próprio fracasso! Pelo contrário: vangloria-se do massacre das reprovações que ocorrem no sistema escolar, por ele mesmo provocadas. Não se pode tentar a cura de um doente que não admita, honesta e humildemente, que seu modelo de atividade profissional tornou-se obsoleto perante os recursos técnicos e científicos!”

Quando um aluno não consegue aprender isso não significa que ele é burro ou preguiçoso, pois ele não estudou neuropedagogia ou didática. Quem entende disso (ou deveria) é o professor. Cabe ao professor buscar uma forma de ajudar o aluno. Cada aluno é único e possui um caminho único de desenvolvimento de suas aptidões. Alguns dirão que trabalhar dessa forma é impossível quando o professor precisa dar aulas para 30 ou 40 alunos.

Então eu pergunto: por que dar aulas? Onde está escrito na lei que um professor deve trabalhar dando aulas? Onde está escrito na lei que uma sala precisa ser usada apenas por uma turma? Onde está escrito na lei que os alunos precisam ser divididos pela idade? Onde está escrito na lei que os alunos devem aprender a maior parte do tempo dentro de uma sala de aula? Onde está escrito na lei que o aluno deve ter aulas por disciplina com apenas um professor por vez? Onde está escrito que cada dia letivo deve ser dividido em aulas de 50 minutos?

Não… Os professores escolheram trabalhar dessa forma e eles mesmos são prejudicados por essa escolha, mas os alunos são os que mais sofrem, porque não tem sua autonomia respeitada.

O que fazer?

Parem de dar aulas. Pesquisem sobre escolas que aboliram as aulas e vejam a alegria dos alunos e dos professores que estão nessas escolas. Não é para amanhã. É agora! A educação precisa mudar agora!

Você é mãe, pai ou responsável por uma criança em idade escolar? Reúna outros responsáveis interessados e conversem com a direção da escola. Precisamos superar o modelo de aulas do paradigma da instrução. Nossas crianças merecem uma escola viva e que permita que cada um desperte o melhor que há dentro de si!

Viva a educação!

 

 

Por: André Luís Corrêa