Pirapora, 26 de setembro de 2040

A Amazônia enviava nuvens de cinza para o Sudeste. Sinais de fumaças decorrentes das queimadas no Cerrado e no Pantanal ofuscavam o céu do Centro-Oeste. A mancha já cobrira o Sul da Bahia… O desgovernado Brasil ardia. Nova tragédia ambiental se anunciava.

Sinto ser meu dever continuar a falar-vos dessa era de pós-verdade, para que a vossa geração não venha a sofrer os efeitos de um novo ciclo de desumanização. Em 2020, uma vaga de negacionismo e ignomínia se tinha abatido sobre a sociedade brasileira e, chegado o fim de setembro, a pandemia virara pandemônio. Aqui vos deixo uma breve coleção de notícias publicadas na Internet desses conturbados tempos.

Escolas particulares pressionavam desgovernos, clamando pela reabertura das dos prédios e o regresso às aulas. No meio do caos informativo, deparei com esta macabra declaração: “Crianças com câncer devem ir à escola por não terem riscos acrescidos”. Era uma afirmação técnica: “a gripe sazonal pode ter quadros clínicos muito mais graves nestas crianças do que a covid-19. Crianças, que estejam em tratamento, correm riscos acrescidos de contrair uma doença infecciosa, no caso de haver uma varicela ou sarampo e não é por isso que deixam de ir à escola” (sic). Prefiro não comentar…

Os Estados Unidos atingiam um necrófilo recorde, contabilizavam duzentos mil mortos pela covid-19. A Europa apertava medidas de proteção, face a uma segunda vaga pandêmica. A representação da uma ópera foi cancelada devido aos incessantes protestos do público na zona mais barata da sala de espetáculos, onde não tinha sido respeitada a distância entre lugares. Os aglomerados de natureza religiosa deram origem a um surto de coronavírus com dezenas de contagiados. E, num asilo, de oitenta e sete infetados três idosos estavam no hospital e sete tinham morrido.

Em Portugal, uma ministra avisava: “Todas as pessoas consideradas contatos de alto risco devem ficar isoladas, não ir ao trabalho ou à escola, fazer o teste e aguardar novas instruções (,,.) a primeira semana de ano letivo correu bastante bem”. Otimismo prematuro, porque não demorou sequer uma semana, uma escola mandou todo mundo para casa, após um funcionário contrair o vírus. No Brasil, alheios à balbúrdia, zelosos cumpridores de ordens de superiores hierárquicos continuavam a exportar inúteis aulas online. Urgia intervir.

Na contramão da insanidade, adultos jovens chamados neorrurais, buscavam um novo modo de viver, criavam formas de ação coletiva. A qualidade da vida urbana se deteriorara ainda mais com o caos provocado pela pandemia. “A cidade se tornou cara, caótica e violenta”, diziam, recusando a competição e o individualismo típicos dos meios urbanos. Paralelamente, se gestava uma nova economia, a questão ambiental passou a ser um ativo econômico.

Com o avanço da tecnologia comunicacional, a dimensão do espaço físico não impedia a conexão com o mundo. Os neorrurais praticavam cooperação, criavam soluções em coletivo. Pensando globalmente e agindo localmente, aproximavam-se do conceito e da prática de comunidade de aprendizagem. A Internet colmatava limitações da opção de vida na ruralidade, permitindo a prática do “home office” (que deveria chamar-se “home work”), mas mantinha  as crianças dessas comunidades dependentes do consumo de aulas online e do cumprimento de “tarefas de casa”.

No último sábado desse setembro, centenas de educadores se encontraram. Partilharam fragilidades, preocupações, conspiraram. A partir desse encontro, a educação nunca mais foi o que fora antes.

Por: José Pacheco