Caçapava do Sul, novembro de 2039,

Em cartas enviadas há mais de trinta anos, falei-vos do tempo em que nascestes e do tempo de ir à escola:

Querida Alice, chegou, finalmente, o dia do teu sexto aniversário. Finalmente, porque a pressa de ser grande se transforma em impaciência quando os aninhos ainda podem ser contados pelos dedos.

Querido Marcos, escrevo para os netos, na apaziguadora certeza de que eles serão os nossos olhos e as nossas mãos, quando os seus filhos forem, finalmente, as crianças felizes e sábias que eu desejaria todas as crianças hoje fossem.

E contei-vos estórias do tempo da velha escola. Como a estória de vida do Paulo, o marido da minha irmã Paula. O Paulo era o mais novo dos dois amigos desta história. Tinha ficado pela quarta classe antiga e o seu amigo era professor. Preocupado, o Paulo pediu conselho ao amigo:

Sinceramente, qual será a melhor escola para matricular a minha filha na “primeira classe? Faça de conta que a Catarina era sua filha! Que me diz?

Lacónica e sinceramente, o amigo professor respondeu:

Há bons professores em todas as escolas.

Mas o Paulo não desarmou:

Não é bem assim. Na minha primeira classe, eu tive dois professores. Um tratou-me tão bem que eu nunca mais o esqueci. A outra foi uma cabra que me fez odiar tanto a escola, que me raspei dali para fora

Como é que foi? – retorquiu o amigo.

Eu era muito pobre e a professora fazia distinção. Pôs-me ao fundo da sala, ao lado dos meninos pobres e da fila dos burros.

Mas… e o outro professor? – demandou o amigo.

Esse era muito diferente. Tratava-nos a todos com meiguice e paciência. Nunca nos bateu. E nós até éramos para aí mais de trinta e difíceis de aturar. Se eu hoje sou alguma coisa devo-o a ele. Ainda hoje me lembro dele, quando tenho de decidir da minha vida…

O amigo professor interrompeu-o:

Mas o que foi feito desse tal professor?

A meio da primeira classe, ele chamou-nos, um a um, ainda me estou a lembrar quando chegou a minha vez. Abaixou-se, pôs-se da minha altura e disse-me: Paulinho, eu vou ter de ir embora, não quero, mas tenho de ir para a guerra.

Até me deu vontade de chorar, mas disse que sim co’a cabeça, que eu até sabia que o Eduardo, lá da minha rua, tinha morrido na guerra de Angola.

Em que escola andaste? Em que ano entraste na escola? – perguntou o amigo.  O Paulo respondeu. E era o mesmo ano e a mesma escola onde o seu amigo tinha começado a carreira de professor. Este ainda arriscou esclarecer uma última dúvida:

E só havia uma “primeira classe” na tua escola?

O Paulo respondeu negativamente, mas acrescentou:

As outras três “primeiras” tinham professoras, só a nossa é que tinha um professor.

E como era esse professor? – perguntou-lhe o amigo.

Era mais ou menos da sua altura. Andava sempre vestido de preto e usava sandálias. Tocava violão e ensinava-nos canções bonitas. Tinha o cabelo comprido e uns óculos à John Lehnon.

A descrição feita pelo Paulo ajustava-se, perfeitamente, à pessoa que o seu amigo professor tinha sido… trinta anos antes. Netos queridos, o professor da estória era eu. E o Paulo da estória foi meu cunhado. Faleceu muito novo, porque a vida lhe foi madastra.

Eu sei que a possibilidade de ocorrer algo assim é de um para um milhão. Mas aconteceu. Porque não é por acaso que há acasos…

Para a minha irmã Paula e para vós, envio um amoroso beijo.

O vosso avô José.

Por: José Pacheco