Arraial d’Ajuda, 25 de fevereiro de 2041

Em Portugal, conheci um ministro da educação de quem me fiz amigo. Em comum tínhamos o mesmo dia de aniversário e a paixão de educar. Mais tarde, já no Brasil, colaborei com outro ministro, que dizia:

Na educação como na cultura, não há limite: sempre se pode descobrir ou inventar mais. Cada vez mais, a educação deverá se culturalizar, deixando de seguir currículos rígidos”.

Queria acreditar que tal declaração se constituísse em bom augúrio e que o seu mandato por ela se pautasse. Mas… 

Eu detestava os “mas”, sobretudo quando abriam uma Caixa de Pandora de onde provinham desgraças. Se um ministro fazia publicar decretos com propostas de mudança, logo o monstro burocrático, que dava pelo nome de “ministério”, paria regulamentação, que neutralizava os potenciais efeitos dos decretos. E tudo entrava em processo de mudança… para ficar tudo como dantes.

Nos idos de vinte, em muitas escolas brasileiras, uma rede de projetos discretamente se prefigurava, esboçando novas construções sociais de aprendizagem, à semelhança de uma Finlândia, que esboçava o abandono do tradicional ensino por disciplinas. No novo modelo, que se pretendia aplicar nesse país, todos os assuntos estavam interligados. Entretanto, o Ministério da Educação francês lançava uma reforma assente em três pilares: flexibilidade, autonomia e interdisciplinaridade. Essa reforma sustentava que as escolas deveriam alterar a sua forma de ensinar, “dando mais importância aos trabalhos de projeto, aos trabalhos de grupo e proporcionando aos alunos oportunidades de procurar relacionar a sua aprendizagem com aspetos práticos do quotidiano, tornando as suas aprendizagens úteis, coerentes e significativas”. O ministério francês classificava a sua reforma como uma “refundação da escola”. Infelizmente, não foi.

Outra grata surpresa chegava da Catalunha. Os colégios jesuítas dispensavam aulas e testes, eliminavam cursos, exames e horários. Derrubavarm as paredes de suas salas de aula e criavam grandes espaços de trabalho em equipe, onde se adquiria conhecimentos através de projetos, com acesso a novas tecnologias. Um alto responsável jesuíta afirmou: “

Em vez de olhar para o diário oficial, olhamos para o rosto das crianças e ajudámo-los a desenvolver os seus projetos de vida, para descobrirem os seus talentos. Juntamente com a família e a internet, procuramos construir pessoas”.

Eram boas as notícias, embora de efémera tradução prática, pois a escola que desgraçadamente tínhamos, nos idos de vinte, era a enésima versão de uma construção social concebida entre os séculos XVIII e XIX. Desde há mais de meio século, eu assistira a tentativas de reformas e à inevitável falência das indevidamente cognominadas “inovações”, que não ousavam operar ruturas. As iniciativas ministeriais juntavam resquícios do discurso pedagógico escolanovista com a adoção de paliativos do modelo da instrução, vazios de sentido e de utilidade. 

Era justa a indignação da minha amiga Tina:

“A transformação da educação depende da sua transformação. Você precisa assumir que a educação não está bem, se conscientizar de que a escola atual não tem embasamento científico. Não dá mais para ficar sentado reclamando, enquanto reproduz a velha e ineficiente educação e aponta o dedo para o sistema, as instituições governamentais, seus superiores ou os seus pares. Não continue a reproduzir a escola que engole crianças e cospe bagaços. Precisa conhecer a LDB, pois ela te dá base legal para a transformação”.

Bem pregava Frei Tomás…

 

Por: José Pacheco