Casal do Sapo, 22 de janeiro de 2041

Há cerca de setenta anos, em equipe, contribuí para uma escola tivesse concretizado, plenamente, a proposta da “Escola Nova”: a transição do instrucionismo para a aprendizagem. Nessa transição, poderemos identificar três períodos distintos. 

O primeiro foi o tempo em que estive sozinho. Na “minha sala de aula” – nesse tempo, eu “dava aula” e dava muito bem… – aplicava a parafernália freinetiana: a imprensa Freinet, os ficheiros autocorretivos, a aula passeio, a correspondência escolar, a classe cooperativa, a assembleia de turma e até a famigerada “aula invertida”. 

O segundo foi marcado pela rutura com o trabalho solitário em sala de aula. Um projeto humano é sempre um projeto coletivo e, com a Maria José e a Maria Luísa, a primeira equipe de projeto foi constituída. Os restantes professores da escola iam assistindo e denegrindo o nosso trabalho junto da comunidade. Mas nós já éramos pertença da comunidade. Após a publicação da Lei de Bases, toda a escola se uniria em torno de um projeto. 

No estertor das velhas práticas, apenas uma professora resistiu. Dizia que estava “velha demais para projetos” (contava, na altura, trinta e um anos). Já não havia uma organização em turma, mas a Dona Fulana exigia uma turma. Já nos tínhamos emancipado da aula, mas a senhora dizia que, “se não a deixassem dar aula, nada faria”. E passava dos dias lendo revistas da moda, num canto de sala. 

A comunidade se insurgiu. Falou ao coração da docente, que reagiu com ameaças. Os pais souberam como lidar com a situação. E mais não conto, porque se trata de um episódio difícil de acreditar que tivesse acontecido… 

Mas, a que propósito vem esta prosa? – perguntareis. Porque não resisto a contar-vos outro peculiar episódio, que havia guardado para incluir num livrinho de estórias incríveis e que não ouso contar. Talvez as publique a título póstumo (o que, dada a minha provecta idade, já não deve faltar muito…).

Por via de uma denúncia anônima, tivemos o desprazer da visita de um fiscal do ministério. O zeloso funcionário ordenou que a escola retomasse o uso do livro de ponto. 

De nada valeu aos professores dizer que não precisavam de tal instrumento de fiscalização, que nunca faltavam ao serviço, ou que o livro de ponto atentava contra a sua dignidade profissional, pois se consideravam educadores autônomos e responsáveis. Se o fiscal ordenou, estava ordenado, teríamos de cumprir os regulamentos instrucionistas.

Por dever de obediência hierárquica, a ordem foi cumprida…com criatividade. As assinaturas no livro eram multicoloridas: cor de laranja, vermelhas, amarelas… de modo que, se as folhas fossem olhadas a mais de um ou dois metros de distância, assemelhavam-se a pinturas de Van Gogh – flores amarelas, rubras…

O fiscal voltou, para verificar o cumprimento da ordem. Pareceu escandalizado e pretextou que não se podia assinar o ponto com tais cores. Perguntamos ao fiscal se estava escrito na lei que não se podia assinar a vermelho e amarelo.

Também lhe explicamos que os regulamentos instrucionistas impediam a inovação. E que, se o ministério fosse esperto, deveria adequar os seus regulamentos à lei geral.

E o fiscal… “nem chus nem mus”. Pediu o livro de visitas, rasgou a folha onde, tempo atrás, havia redigido a ordem, jogou-a no lixo e disse para dar sumiço ao livro de ponto. Na despedida, ainda pediu que não constasse que ele havia estado naquela “escola de loucos”. 

Aquele fiscal nunca iria entender que aqueles “loucos” jamais abdicariam de uma prática emancipatória, avessa a regulamentos instrucionistas. 

 

Por: José Pacheco