Cruzeiro, 20 de maio de 2040

No decurso da pandemia, eu observava o louvável esforço feito pelos professores, para “não perder alunos”, para “os alcançar” (sic). Eram admiráveis as suas tentativas de adaptação ao virtual. Sob a pressão da pandemia, tinham sido adotadas precárias soluções e não se poderia pedir mais empenho a professores e estudantes.

A minha amiga Dora estava atenta ao drama vivido pelos incansáveis professores e pronunciava-se favorável à abolição “da escola chata, autoritária, conteudista, distante dos interesses dos alunos, imposta goela abaixo das crianças e dos adolescentes, arrancando deles a curiosidade e a vontade de estudar”. A Dora pugnava por uma educação diferente da tradicional. Desejava-a ativa, autônoma, com afeto entre educador e educando.  considerava que “o problema não está em fazer agora um ensino à distância (e não é mesmo possível fazer outro ensino). O problema é transferir para o ensino à distância o que já é ruim no presencial”.

Não passava um dia sequer, que eu não escutasse ecos das palavras da Dora, na voz de professores. Na terceira semana de maio, tomei a decisão de dar resposta prática aos muitos pedidos de ajuda.

Há quase setenta anos, eu era um professor como qualquer outro. Dava as minhas aulas, como qualquer outro professor. Cumpria ordens dos superiores hierárquicos, numa escola chata, autoritária, conteudista. Até ao dia em que, com mais duas professoras, tomei uma decisão ética. E, em 2020, à semelhança do que havíamos feito, em meados da década de setenta, convidei professores, pais e comunidades, para pôr fim à escola chata, autoritária e conteudista. A começar por recusar obedecer a quem os obrigava a preparar e a exportar inúteis aulas online. O primeiro momento de uma grande mudança foi a criação de “núcleos de projeto”. Considerada a escola como nodo de uma rede de aprendizagem, seria necessário constituir parcerias, estimular o espírito inventivo e assumir responsabilidade social, dentro do princípio ético que nos diz que tudo o que for inovado o deva ser para benefício coletivo.

Expliquei como se constituiria um Núcleo de Projeto. Era o dispositivo central do processo de mudança das práticas, o primeiro passo de um projeto de reelaboração da cultura pessoal e profissional, concomitante com a concretização de um projeto educativo. O Núcleo de Projeto nascia no encontro entre professores, famílias e agentes educativos locais. Também seria necessário incluir gestores e pesquisadores. Centenas de educadores responderam ao convite.

A preocupação maior era a de cuidar da pessoa do professor, elevar-lhe a autoestima, o estatuto social. Aceitar que muitos não ousassem mudar, por medo das consequências. Nada impor a quem discordava e criticava, porque crenças não se discutem – respeitam-se. Tentar estabelecer uma comunicação dialógica, com os gestores. Usar de compreensão e compaixão para com eles. E de muita resiliência, de muita paciência, para não desistir.

Também seria necessário estabelecer um diálogo franco com as famílias, pois muitas delas ainda alimentavam a crença nas virtudes da velha escola. E dialogar com uma sociedade enferma da “Síndrome da Gabriela” (eu sou assim, fui sempre assim, serei sempre assim…), explicando-lhe que nem sempre foi assim. Que a escola “é assim” só desde há cerca de duzentos anos. E que, assim sendo, essa escola vem semeando ignorância, analfabetismo, múltiplas violências e escassas aprendizagens.

Com a criação dos núcleos de projeto estava dado o primeiro passo de um longo (e difícil) caminhar.

Por: José Pacheco