São Tomé de Negrelos, 5 de junho de 2041

Um jornal de dezembro de 1987 dava notícia de que “os professores de uma escola acabadinha de estrear descobriram um dia que ela tinha estantes sobre o comprido, a que não atribuíram valor imediato, Mais tarde, descobriram para que servia: para que eles e os alunos arrumassem os esquis”.

Em 1966,  o grupo de trabalho constituído por técnicos do Ministério das Obras Públicas e do Ministério da Educação propôs-se elaborar vários estudos, entre os quais, um projecto para a construção de uma escola primária piloto, que viria a ser erigida em Mem Martins.

O ministério pediu explicação aos países do norte da Europa, que haviam patrocinado a edificação dessa escola: para que serviriam as “estantes com furinhos”, instalados no hall de entrada da escola?

Feita à semelhança das congêneres escandinavas, as estantes destinavam-se à colocação dos bastões de… esquis. Sugeriam que, em Portugal, os alunos fossem para a escola deslizando na neve os seu esquis. Ridículo!

Uma forte componente financeira esteve na origem do “Projecto Mediterrâneo”. O financeiro e o político viriam a descaraterizar o projeto das escolas de área aberta.

Foram instalados tapumes e paredes, quando os professores se queixavam de ouvir a aula e os gritos dos colegas da sala do lado. A arquitetura apelava ao trabalho em equipe, mas prevalecia a cultura individualista do professor em sala de aula.

O projecto das escolas de área aberta obedecia a alguns princípios. O edifício da escola representava a transição da habitação para a vida pública, tinha em consideração o tamanho da criança e estava aberta ao exterior. O ensino se transformava em aprendizagem por via de atividades em espaços diversificados. Era fomentada a manipulação e criação de objectos, na zona de trabalho, dita “suja”, dotada de pontos de água. Eram organizadas situações como a de trabalho em grupo, prevendo-se a mobilidade do equipamento.

As refeições eram consideradas atividades educativas, tendo sido suprimida a separação  entre edifício-cantina e edifício-escola. As instalações sanitárias seguiam a mesma lógica, como apoio e momento de educação. A escola funcionava num edifício aberto, num equipamento social de e para toda a comunidade.

Dado que nem todas as atividades podiam ser realizadas no mesmo espaço, eram instalados os chamados “polivalentes”. Ali se realizaram as primeiras reuniões da Assembleia de Escola. Mais tarde, o “polivalente” se mostrou pequeno para albergar os encontros da comunidade, das pessoas, da escola. E as reuniões passaram a realizar-se no edifício do cinema da vila.

Da Europa dita Comunitária chegavam milhões de euros, desperdiçados na construção de prédios de escola, autênticos “elefantes brancos”, mas a que a ignorância atribuía a classificação de “escolas do futuro”. A ambição de políticos e a crença de que escolas eram edifícios deitaram a perder projetos que, se concretizados, mudariam a face da educação.

A escola de área aberta da Ponte – talvez a única não descaraterizada –  foi “despejada”. Políticos manhosos intimidaram professores medrosos, que desrespeitaram a vontade da comunidade e as suas soberanas decisões. O silêncio tomou conta do edifício. Vila das Aves e o bairro da Ponte perderam uma escola.

Em São Tomé se acantonaram as pessoas, se refugiou um projeto, que perdera a causa e o rumo. A Ponte ainda era uma boa escola, mas cadê a inclusão social? Paredes-meias com a uma “escola normal”, com ela não comunicava. Constituíra-se numa ilha de excelência acadêmica socialmente desenraizada.

Por: José Pacheco