Pampilhosa da Serra, 2 de junho de 2041

Netos queridos,

A Escola da Ponte me condenou a uma diáspora, que só em meados da década de vinte cessou. Andei de escola em escola, no meu carrinho em segunda mão, por estradas onde Cristo não passou. Nunca aprendi a dizer “não” e, sempre que um professor me chamava, eu ia ao seu encontro. 

Recordo, em particular, uma viagem a Pampilhosa da Serra, nos finais da década de setenta. Estrada de terra, escola do Plano dos Centenários, um professor já entrado na idade, um dos muitos extraordinários projetos, que, infelizmente, se quedaram pelo anonimato.

Como vos disse na cartinha anterior, andei por terras de França, para colher “in loco” ensinamento junto daqueles que concretizaram práticas da Escola Nova. Outras viagens se seguiram. Em meados da década de oitenta (se não me falha a memória), representei a Ponte e Portugal no encontro de escolas inovadoras dos doze países da, então, “Comunidade Económica Europeia”. 

Na década de noventa, nova passagem por Paris, para religiosamente escutar Morin. Depois, para Londres, com o meu amigo Steve, para estabelecer contato com mestres das ciências da educação. Procurava, sobretudo, encontrar Basil Bernstein. Já não se encontrava na University College, mas pude garimpar rica documentação nas bibliotecas londrinas.  

Bernstein buscou compreender a relação causal entre classe social, linguagem e rendimento escolar, partindo de dados concretos, segundo os quais os estudantes da classe média obtinham, contrariamente aos da classe trabalhadora, êxito em sua vida acadêmica. Grosso modo, entre estes predominava aquilo que ele designou por “código restrito”, enquanto os primeiros recorriam ao que ele chamou de “código elaborado”.

Em síntese, “código restrito” era definido ”pela “rigidez da sintaxe e pelo uso restrito das possibilidades formais de organização verbal.” Era “uma forma de linguagem oral relativamente condensada, na qual determinados significados” eram restritos. E a possibilidade de elaboração era reduzida. 

Nas palavras de Basil Bernstein, no “código elaborado”, “as possibilidades formais e a sintaxe são muito menos previsíveis e as possibilidades formais de organização da sentença são usadas para esclarecer o significado e torná-lo explícito”. Este código se caracterizaria por sentenças gramaticalmente complexas, pelo uso variado de conjunções e orações subordinadas de preposições que indicariam relações lógicas, pelo grande recurso a adjetivos, advérbios e pronomes.

A comunicação entre professor e aluno estava sujeita a “ruído”. A discrepância entre a linguagem falada pelo estudante e a linguagem falada na escola estaria na origem de problemas de aprendizagem. O domínio desses códigos explicaria, em grande parte, o insucesso escolar de muitos estudantes. 

Algo semelhante sobreveio no discurso “elaborado” das ciências da educação. A teoria foi sequestrada, não fertilizou a prática. Virou quase esotérica, ficou exposta à má-lingua dos detratores, que criaram termos insanos, como o “pedagogês”, para designar o discurso “obscuro” de universitários ociosos. 

A praga propagou-se da academia para o ministério. Um linguarejar pretensamente científico foi prodigamente usada pelos eduburocratas do ministério e replicada em teses de doutorado. A caricata situação se prolongou século XXI adentro, acarretando o descrédito de movimentos potencialmente inovadores, legitimando desmandos da administração educacional, contribuindo para manter a escola ao nível da indigência pedagógica.

 

Por: José Pacheco