Fonte Boa, 1 de junho de 2041

Ainda não tinham sido inventados os TDH, nem havia Ritalina. Mas, todas as semanas, nos chegavam crianças a quem a escola negara o direito à educação.

Disse-me uma amiga que alguém lhe disse, que outro alguém lhe dissera, que alguém terá dito que a escola que acolheu o Miro – a Escola da Ponte – não aceitava qualquer aluno e que os “selecionava”. 

Este e outros malfazejos disparates visavam denegrir a imagem dessa escola, pelo que se justificou divulgar o exemplo do Miro. Devereis estar recordados de o ter feito numa outra cartinha. Por mais inverosímil que possa parecer, o sofrimento do Miro era real. E não se pense que fosse um caso isolado. Poderia trazer-vos dezenas de casos semelhantes, que tinham por centro os tais alunos “selecionados”. 

Poderia contar-vos muitas histórias de crianças recuperadas nessa escola de última oportunidade. A história da Ana, após quatro anos de degredo num fundo de sala, rotulada de burra. A do Francisco, que, chegado à nova escola, desatou aos pontapés nos novos colegas, a cuspir, a insultar, por ser essa a gramática que, secretamente, aprendera em três anos de insultos e humilhações. O Eduardo, após meses de privação de recreio, só porque o seu braço doente o impedia de acompanhar a turma na escrita de carreirinhas de letras. O Joaquim, que se gabava de, na outra escola, “ter posto um professor no hospital”. O Pedro, o choro em forma de criança, nos primeiros dias na nova escola, porque, se já sabia ler quando entrou para a antiga, foi forçado a esquecê-lo e a “acompanhar o resto da classe”. Acumulara cansaços e desgostos. Face ao estado em que chegou, quase diríamos ser possível a uma criança poder odiar. 

Do órfão ao maltratado, os rejeitados nos chegavam encaminhados por psicólogos, instituições de reinserção social. Vinham de lugares distantes, com marcas de experiências de abandono e indiferença, que era a pior forma de violência. Estavam sozinhos na escola. 

Deixaram de estar sozinhos na escola dos alunos “selecionados”. Dentro dos seus humanos limites, a escola de que vos falo a todos acolhia, a todos ajudava na recuperação da autoestima, do respeito por si próprios. Direis que todas as escolas tinham este tipo de alunos. A diferença está em que a nova escola do Miro tinha mais. Tinha os que lhe cabia em sorte mais aqueles que outras rejeitavam. 

A ideia de que a pedagogia era a arte de ensinar tudo a todos como se fosse um só, permitia manter a crença nas virtudes do “ensino tradicional”, conservar expectativas e perenizar a representação que a sociedade tinha de escola. Eram ignorados os efeitos colaterais das práticas ditas “tradicionais” e a sua inadequação às transformações sociais a que assistíamos, desde tempos imemoriais. 

Há muito tempo, mesmo muito tempo, as ciências da educação confirmavam que o mundo dos métodos de ensino e o dos processos de aprendizagem ainda estavam separados. A forma como o professor ensinava ainda não fora relacionada com a forma como o estudante aprendia. E as “reformas” eram disfarces, apenas contribuíam para adiar a mudança e impedir a inovação. Adolfo Lima, pedagogo escolanovista, afirmava:

“Uma reforma radical é talvez possível, mas que uma reforma não radical é inútil”. 

Mais de um século decorrido sobre a sábia afirmação, era a cultura das escolas que continuava a estar em causa e urgia transformar. Era preciso saber o que poderíamos ainda fazer da “Escola Tradicional” com aquilo que fizeram dela. Velha e matreira, ela aprendeu a legitimar-se. Beneficiou de implantes, que lhe alteraram o rosto sem lhe modificar as entranhas.

 

Por: José Pacheco