Magé, 29 de março de 2040

No tempo em que o COVID-19 se instalava, havia quem contrariasse conselhos de amigos e governamentais imposições. Jovens transgressores esgueiravam-se do ninho protetor, para ir “brincar lá fora”, batendo polegares em computadores. “Turmas” de solitários seres, reproduziam o modelo escolar. E a “aula” do século XIX instalava-se nas ruas e nos lares do século XXI.

Apesar dos pesares, o confinamento imposto ajudou a salvar muitas vidas. E foi, também, oportunidade de conhecer outras vidas, pois vizinhanças ocultas se revelaram. A solidariedade tomou forma de mensagens de rede social. Como aquelas que evocarei nesta cartinha.

A primeira era de leal franqueza e dizia: Professor, por que passa a vida a escrever? Pouca gente lê e são poucas as minhas colegas que o entendem. E até se ofendem, quando o professor diz que não se deve dar aula. Essa professora tentara demover as suas colegas do rame-rame da ensinagem tradicional. Em vão tentou e colheu desdém. Inclusive, efeitos colaterais da sua solidária atitude levaram-na até ao divã do psiquiatra… E por aí se quedou a sua intenção de mudança., que não a da minha amiga Cecília.

A sua vida foi dedicada a inventar modos e lugares de fazer pessoas sábias, seres humanos felizes. Dotada de uma enorme força de vontade e de uma amorosidade ilimitada, dera forma a um dos mais inovadores projetos, que o Brasil conheceu: o Projeto Alto Independência de Petrópolis.

Quando a Secretaria de Educação, mancomunada com professores antiéticos, extinguiram o projeto, a Cecília foi semear humanidade em outros lugares. Dois anos decorridos e em plena crise do vírus corona, dela eu recebia notícia: Passamos por um momento difícil com a pandemia do Coronavírus, que acabou mostrando muitas fragilidades escondidas em rotinas e sistemas, que estão agora escancaradas para a sociedade. Estas fragilidades deixaram a todos perdidos, ao se verem em isolamento.

Vejo escolas e secretarias de educação em desespero, com medo de o currículo sufocar a todos, com o ano letivo atípico. E vejo, a cada dia que passa, mais e mais estratégias de enviar conteúdo para casa, em horários marcados para pegar o material na escola, para estudar com ele em casa (parecendo que só é legitimado o conhecimento organizado ali), banco de  atividades propostas por professores, separadas por ano de escolaridade, aplicativos, plataformas…

A psicologia da memória diz-nos que a melhor memória de um velho é aquela a que chamam de “longo prazo”. Talvez os psicólogos tenham razão, porque me recordo perfeitamente de, no dia em que recebi as mensagens da Cecília e do André, ter escutado de uma casa próxima sons de contenda:

Vai já fazer a tarefa que a professora mandou! Já a mandei. E não repito! – era a voz de uma mãe preocupada, ordenando à filha que fosse lesta a cumprir as tarefas, que a secretaria de educação tinha despachado pela Internet.

Não quero! Já disse que não quero!… Pronto! Já vou! – Eram bem audíveis os gritos chorosos de mãe e filha, altercando.

Por amor, a mãe da chorosa criança obrigava a filha a engolir “currículo pronto a vestir”. A “overdose de tarefas de casa” recebida da secretaria de nada servia, a não ser para manter as crianças ocupadas. Na sala de aula, os professores fingiam que ensinavam e as crianças fingiam que aprendiam. No conforto dos lares, as crianças cumpriam tarefas sem sentido e os pais acreditavam que elas estavam aprendendo. Tal como o vírus, o sistema de ensinagem possuía grande capacidade de adaptação…

Por: José Pacheco