Valparaíso de Goiás, 31 de março de 2040

Queridos netos, esta cartinha contém a transcrição de mensagens, que guardei durante todos estes anos, para que a memória dos absurdos de há vinte anos não se desvanecesse. Com elas vos deixo.

Eis a primeira, recebida no WhatsApp: Boa noite. Já que isto aqui é uma rede de ajuda, eu queria saber se, no grupo, há mais alguma mãe surtada, ou se só sou eu mesmo. Porque vou ser muito sincera com vocês. Dever de casa acabou. Acabou a paciência. Acabou a responsabilidade social. Acabou tudo! Já não tou dando conta, não! Tou surtada, entendeu?

As crianças precisam voltar prá escola urgentemente. Por amor de Deus! Estou ficando com ódio! Ódio de cada professor, que me manda link para eu entrar, prá dazer exercício. Não tenho condição de fazer exercício com ninguém. Eu vou dar férias, aqui, prá todo mundo, por conta. Porque, lá na Espanha, já resolveram que esse negócio de homeschooling estressa as mães. A sério! Eu não sou pedagoga! Como é que eu vou fazer, agora, prá cozinhar, prá limpar e ainda fazer homeschooling?

Outra mãe assim se expressava: Eu estou nessa situação com minha filha no ensino médio. Ontem ela precisou scanear e enviar para o e-mail da professora uma lista de palavras para separar as sílabas… E todos os professores mandam links e links e mais links, tarefas e mais tarefas…

Uma terceira mãe, tão exausta como as anteriores: Ontem recebi o e-mail de um aluno de 11º ano, que é um jovem cheio de energia, completamente em pânico! Ninguém lhes explica nada! Estivemos mais de uma hora a teclar no Messenger. Ele não quis chamada de voz, para a mãe não ouvir e não ficar preocupada. E lá foi dormir, espero eu, mais tranquilo…

Vou comentar e já sei que me vão criticar, mas é o que penso. Repensemos o que é realmente relevante! Neste momento, a nossa preocupação fundamental devia ser o equilíbrio do aluno e não a sobrecarga de tarefas, que o obrigam a estar sentado em frente ao computador a acompanhar aulas online. Não entendo esta necessidade de se enfatizar o pior das práticas, os montes de fichas e testes, em vez de se destacar a janela de oportunidade de processos diferentes e inovadores. É só links, videoaulas, lives. Hoje, ouvi uma pessoa dizer que estava com medo de abrir a geladeira e encontrar uma LIVE lá dentro…

Por essa altura, enquanto as “ajudas” às famílias surgiam online, sob a forma de virtuais paliativos de um modelo de ensino obsoleto e sem fundamento científico, o ministro da saúde afirmava agir autonomamente, orientado pela ciência. Mandetta apelava ao Isolamento social. Mas, confinados nas suas casas, os jovens denotavam total ausência de autonomia. A escola da aula fizera deles seres dependentes, individualistas.

Eu temia que professores e famílias não tivessem entendido a mensagem do vírus. Nos últimos duzentos anos, a escola da aula havia recusado o direito à educação a milhões de seres humanos, havia feito mais vítimas do que o vírus corona. Eu temia que, após a crise, as bases do sistema econômico e do educacional não se modificassem.

Porém, aconteceu o inadiável. Educadores conscientes desse risco decidiram não esperar pela pandemia seguinte. Conceberam uma nova Educação, criaram uma nova Escola onde, realmente, se aprendia a aprender, aprendia a ser e a… conviver.

Irei falar-vos do que aconteceu nesse mês de abril de há vinte anos.

Por: José Pacheco