São Sebastião, 24 de abril de 2040

No cenário da aula online, como no “normal” quotidiano da sala de aula, a profissão de professor era considerada pela Organização Mundial de Saúde como uma das de maior risco. A OMS o reconhecia e a OCDE promovia cimeiras sobre o bem-estar dos professores. Porém, o que se discutia nesses encontros era a manutenção de um profundo mal-estar. Um secretário-geral afirmou que não se deveria perder a oportunidade de colocar o bem-estar dos professores no centro das políticas de todos os países e que o bem-estar dos professores teria de ser percebido como um tema político de primordial importância. Plenamente de acordo! Era necessário cuidar da pessoa do professor, que assim se manifestava:

Sinto que há um medo, uma insegurança no ar, uma falta de confiança entre aluno e professor. Ouço-me dizer coisas, que estavam no meu entendimento anterior, mas que não haviam se evidenciado no presente daquela aula. É o pior momento que posso imaginar numa aula. Parece que você mesmo se perdeu no passado. Você começa a se sentir clonado por uma voz antiga. Então, é uma luta contra aquilo que você já pensou. Você não pode ficar naquilo que já pensou alguma vez, pois você está reproduzindo como autômato uma experiência. Quando isso ocorre, a aula vai por água abaixo. Eu tendo a pensar nos efeitos negativos do flautista de Hamelin: se você está fazendo alguma coisa de que todo mundo na classe está gostando, alguma coisa você está fazendo de errado.

Quanta honestidade e até mesmo humildade a desse professor! Como eu o compreendia e admirava! Passei pelo mesmo dilema, há cinquenta anos. E me questionava: Por que é que eu dou aulas tão bem dadas e há alunos que reprovam, que não aprendem?

Foi na Ponte, que encontrei a resposta: se eu dou aula e eles não aprendem, eles não aprendem porque eu dou aula. E instalou-se em mim um mal-estar indescritível. Tomei consciência do que fizeram de mim. Mas não sabia o que fazer com o que fizeram de mim – eu só sabia dar aula. Ao mesmo tempo, apercebi-me de que outros professores manifestavam o mesmo incômodo, mas agiam como o avestruz, quando se sentia em perigo: metia a cabeça na areia.

Os professores meus contemporâneos eram profundos conhecedores dos assuntos que leccionavam. Mas, para quem “davam aula”? Era suposto que, se o professor leccionava, uma aula serviria para que o aluno aprendesse. Porém, faltava saber como se aprendia. Isso não nos tinha sido ensinado nas aulas do curso de formação de professores.

Partimos daquilo que éramos, daquilo que tinham feito de nós. Usamos aquilo em que éramos competentes: o “dar aula”. Apenas com amorosidade e intuição pedagógica – nesse tempo, ainda ninguém conhecia o Piaget… – nos emancipamos do “dar aula”. E a aprendizagem aconteceu.

Quando algum professor enveredava pela autocrítica, agia como Agostinho da Silva, quando dizia: O que importa não é educar, mas evitar que os seres humanos se deseduquem. Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta. Seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário e transformaremos o mundo.

Com quase noventa anos de idade, eu continuo convicto da capacidade de transformação dos professores. Também por isso me chamam aquilo que escutei de um velho professor, setenta anos atrás:

Colega, você é novo, você é um utópico! Vai ver que, quando tiver a minha idade, pensará de modo diferente.

Já sou mais velho do que esse professor seria, se ele já não estivesse no eterno descanso. E continuo sendo utópico, continuo a acreditar nos professores.

Por: José Pacheco