Em Portugal, foi publicada uma portaria, que aponta para a possibilidade de surgirem práticas inovadoras e cria condições de melhoria do sistema educativo. Logo os costumeiros críticos reagiram sob a forma de artigo publicado em jornal. E (claro!) começando por denegrir o projeto que melhor representa a mudança necessária e urgente: a Escola da Ponte.

Ao longo de mais de quatro décadas, foram muitos os torpes ataques desferidos contra ela. Houve quem tivesse de se retratar e pedir desculpa pelo que publicou em jornais, mas a escola desistiu de reagir aos vomitar de ódio na rádio, em jornais e mesas de botequim. Eu também havia decido ignorar a verborreia dos críticos e os insultos debitados em comentários nas redes sociais. Mas, sarcástico, um articulista afirmou serem as minhas concepções controversas, românticas e lunáticas (sic). Nesse tom continuou num chorrilho de besteiras apoiado por comentários deste tipo: como professor e, por isso mesmo, habilitado para opinar sobre o assunto. Como se o fato de o articulista ser professor lhe outorgasse o direito de detratar e caluniar sem fundamento.

O autor do artigo é professor de História e da sua bibliografia apenas constam obras sobre religião. Presumo que, para esse professor, as ciências da educação ainda sejam ciências ocultas e que continue “dando aula”. Na sua memória de longo prazo, repousam vagas noções de psicologia e de outras disciplinas, que lhe foram “ensinadas” na formação inicial e que não constituem saber. Desapossado do saber, preconceituoso na palavra, equivocado na ação, considera-se proprietário da consciência e da moral dos outros e autorizado a falar do que não sabe e do que não faz.

Muitos autores apelaram à necessária harmonia entre pensamento e palavra, bem como à coerência entre palavra e ação: o pensamento é o ensaio da ação (Freud); pense como um homem de ação, atue como um homem de pensamento (Bergson); a palavra é a sombra da ação (Demócrito); não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão (Freire). E, na peça Man and Superman, Bernard Shaw escreve: “those who can do; those who can’t, teach”, expressão irónica bem ao seu estilo, que a cultura popular traduz por “quem tem competência que se estabeleça”. “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”.

A expressão correspondente poderia ser: quem sabe faz, quem não sabe considera-se especialista e no direito de criticar o que não entende. Quem não sabe ensinar desiste do árduo chão da escola, faz um doutoramento qualquer, vai dar aula na universidade, publica papers, faz formação de professores, ganha a vida fazendo palestra de power point, vendendo cursos e… criticando o que não consegue entender.

É longo o cortejo de alarvidades debitadas na comunicação social por pessoas que se arrogam no direito de intervir em domínios em que são meros diletantes. Recusam escutar argumentos contrários às suas crenças. Metem no mesmo saco o experimentalismo (que faz dos alunos cobaias de laboratório) e propostas que, concretizadas, contribuem para garantir a todos o direito à educação. Prestam um péssimo serviço à Educação, pois reforçam preconceitos, contribuem para confundir a opinião pública e até mesmo para deturpar e destruir o árduo trabalho de quem sabe e de quem faz.

Lamento ter de redigir este género de texto. Apresso-me a concluí-lo, com um pedido: que repensem atitudes. E um convite: que aceitem dialogar.

Por: José Pacheco