Complexo do Alemão, 26 de outubro de 2040

Mais uma boca no mundo, mais um trafica chorando, lá vem mais um quase nada, mais um para chorar de fome, mais um para levar tiro, mais um bandido no morro, mais um perdido na vida… – Escutava a canção do Kleber e veio à memória alguém que conheci como a mim mesmo.

Nasceu num “cortiço”, onde havia quatro banheiros sujos e quebrados para partilhar com mais uma centena de pobres como ele. Passou a infância numa oficina de fazer vassouras, num bairro onde não entrava ambulância, nem polícia.

A família reinventava com dignidade a parca existência. O pai, que acumulava três empregos mal pagos, foi preso, injustamente acusado de roubar. A família empenhou o que restava dos poucos haveres, para provar a sua inocência. A mãe morreu jovem exausta de trabalho insano. Os avós paternos cedo sucumbiram à fome e a um surto de tuberculose. Os maternos tinham migrado da aldeia rural para a cidade grande, na ilusão de uma vida melhor. Partiram cedo desta vida, minados pelo álcool e por maus-tratos.

Estava destinado a ser líder de uma gangue do bairro. Era um dos raros que sabia ler, era hábil a resolver encrencas e a escrever cartas de amor encomendadas. Tão sagaz quanto franzino, ganhara o respeito de ciganos e marginais, que nele não usavam as facas e o defendiam de outras sortes. Com eles aprendeu a gramática da sobrevivência: agredir os gringos que na rua aparecessem e, só depois de eles sangrarem, perguntar-lhes ao que vinham.

Conviveu com todo o tipo de violência. Cedo entendeu que fora roubado todos os dias, desde o dia em que nascera. Que, enquanto os seus dormiam no chão da rua, outros dormiam sonos tranquilos.

Foi perdendo amigas para a prostituição e amigos para o cárcere. A sífilis, a fome e a bala foram ceifando vidas ao seu redor. O seu melhor amigo conheceu uma moça abastada e lá se foi, casamento de rico, sonho americano de ascensão social, que pouco durou. Sem amigos e sem futuro, pela mão de dois providenciais vizinhos, trocou a solidão pela evasão. Deles ficou devedor daquilo que nunca lhes pode pagar: o resgate de uma vida. Trabalhou para poder estudar e fez um curso – fez-se professor.

Ele sabia, melhor do que ninguém, que os criminosos não nasciam criminosos. Conhecia os mecanismos sociais que os produziam. Por experiência pessoal, também sabia que, quando a sociedade e a escola produziam exclusão, os jovens buscavam inclusão em grupos marginais.

Sensível aos dramas vividos pelos seus alunos, entristeciam-no as atitudes de professores coniventes com a má qualidade de uma escola vocacionada para manter um sistema iníquo.

Talvez porque não conhecessem a sua história de vida, os colegas de profissão se tivessem surpreendido com a sua colérica reação, quando escutou este diálogo, na sala dos professores:

“Quem pensa que é, aquele merdinhas, aquele marginal? Saio de casa para aturar esta bosta! Eu não ganho para isso!”

“Fez muito bem, colega! Eles vêm de casa desse jeito. Já nasceram assim. Esse pestinha vai ser líder de gangue. Eles não nasceram, eles foram cagados!”

Em 2020, um cúmplice silêncio ensurdecedor ocultava a “banalidade do mal”. Seria verdade que “quem nascia torto tarde ou nunca se endireitaria”? Aquilo que a psicologia chamava de “profecia autorrealizada” agiria na psique mais profunda dos professores? Sabíamos que a escola não mudava a sociedade, mas que mudava com a sociedade. Por isso, ousava perguntar: A reprodução escolar e social seria um inevitável fatalismo? A escola nada poderia fazer para a contrariar? Ou poderia fazer a sua parte?

A minha amiga Cleo fazia “a sua parte”.

 

Por: José Pacheco