Santiago, 14 de novembro de 2040

No novembro de 2020, sucederam-se situações de xenofobia. A palavra xenofobia advém de dois termos gregos: “estrangeiro” e “temor”. Referia-se a manifestações de hostilidade relativamente a tudo que fosse estrangeiro. Também poderia significar discriminação, dificuldade de comunicação entre subculturas, dentro de uma mesma comunidade, ou uma elitização, que negava direitos e remetia gente para vidas marginais. Na escola da aula, também poderia traduzir-se na imposição de distância social e no recurso a códigos linguísticos elaborados, que geravam incompreensão em usuários de códigos restritos, supostos ignorantes.

O Tiago escreveu um texto em que se lia, a certo passo:

“As pessoas querem lá saber o que ainda vai acontecer. Se não nos ajudam é sinal de que só querem que os filhos aprendam a fazer contas, a escrever e mais nada. Se elas fossem espertas…!”

O Tiago era um moço de oito anos de idade e evidenciava maior conhecimento do fenómeno educativo do que os ministros da educação.

“Hoje é o último dia de escola. Amanhã, vou ficar triste, vou ter saudades desta escola. Tenho muitos amigos e os professores também são. A minha escola é a melhor escola do mundo”.

“Até mais logo, amigo Tiago! Que os teus futuros professores não se preocupem somente em encher-te a cabeça com conhecimento inútil!”.

Os tiagos não nos pediam que lhes ensinássemos só contas e letras. Era grato saber que, mais do que as matemáticas ou as gramáticas, “os professores ensinavam a paz e a sermos amigo dos colegas”.

Todas as escolas eram as melhores escolas do mundo. O que ninguém conseguia explicar era que entre os cidadãos portugueses houvesse muitos analfabetos funcionais e que 70% dos portugueses nunca, ou raramente, tivessem lido um livro. Quem conseguiria explicar por que, no Portugal da Comunidade Europeia, foi necessário recorrer a um “nível zero” para abranger 600.000 portugueses incapazes de responder a qualquer das perguntas ou ordens formuladas em testes de literacia?

O povo que andara na “escola de antigamente” entendia a seu modo o mundo em que vivia. Mas, na da década de oitenta e num país europeu, o analfabetismo funcional e literal não deixava entender a informação que se recebia. De cabeça “oca”, ou com ela cheia de conhecimentos inúteis, os produtos de uma escola decadente agiam como um fardo, que impedia a interrogação e a ação refletida.

Havia quem aparentasse saber ler e ler não soubesse. Havia quem lesse apenas os títulos de livros e jornais e quem lesse até aquilo que não estava escrito. Também havia quem não lesse e dissesse que tinham lido. Na escola da aula, tinham lido “resumos” de obras, para debitar em testes e… esquecer.

No mundo, apenas em dois países se tratava por “doutor” um licenciado – Portugal e Brasil – o que contribuía para a pseudo-elitização de uma Escola reprodutora de ignorância. Em países de reminiscências de morgadios e caciquismos, ainda se cultivava a ridícula “doutorite”.

As conclusões de um estudo do final do século XX eram alarmantes. Portugal era classificado como “nação em risco”. Em 2020, a escola instrucionista continuava a produzir bonsais humanos corresponsáveis por uma segunda e trágica vaga de covid-19. A escola da aula não os tinha ensinado a responsabilidade individual pelos atos de um coletivo. A escola instrucionista nem sequer os ensinara a lavar as mãos!

Dois, ou três séculos antes, tínhamos perdido o sentido de orientação. Estávamos numa encruzilhada da história comum, em busca de mapas e caminhos, que nos levassem a torcer o destino.

Por: José Pacheco